Etiqueta: Ensino Superior

  • Uma Universidade ao serviço de quem?

    Uma Universidade ao serviço de quem?

    O Governo apresentou e viu aprovado pelo PSD, CDS, IL e CH o seu projeto de alteração ao Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), documento fundamental que regula o funcionamento das universidades, politécnicos e demais centros de investigação (IES), nomeadamente os seus processos de governação. As alterações são um rolo compressor ao que resta do processo democrático de eleição e participação da comunidade académica, varrendo de vez os docentes convidados e os investigadores precários do colégio eleitoral. Ao mesmo tempo, os estudantes perdem ainda mais voz nestes órgãos de governo. Em suma, a maioria da comunidade académica está ora impedida ora relegada a um plano quase simbólico no que toca à sua participação nas decisões estratégicas das suas instituições. Em sentido inverso, os membros externos saem reforçados no seu poder dentro dos órgãos para os quais foram cooptados.

    A AI², a nova agência para a investigação científica, que vem substituir a FCT e a ANI, apresenta um perfil que aprofunda as desigualdades entre as áreas ditas tecnológicas e as outras áreas do saber como as ciências sociais, artes e humanidades, promovendo um modelo que prioriza a “ligação entre o conhecimento científico e a economia”, ou seja, modela a Universidade às necessidades do capitalismo contemporâneo. As desigualdades agravam-se à medida que, paralelamente à precariedade a que os trabalhadores científicos estão sujeitos, lhes é retirada autonomia de pensamento crítico e ação.

    A pergunta sobre para que serve a Universidade não pode ser separada de uma outra: onde estão e quem são hoje os poderes que determinam o futuro da Humanidade. O conhecimento científico não representa apenas um poder simbólico, ele opera no plano da disputa geopolítica, da concorrência selvagem entre potências e tem representado um instrumento fundamental na concentração de riqueza. Hoje, os doze mais ricos do mundo detêm mais de metade de toda a riqueza ao nível planetário. Apostaram as suas fichas no capitalismo de casino, mas também na captura de um conjunto de avanços tecnológicos que lhes permitem serem hoje jogadores no xadrez mundial onde as redes sociais, os dados pessoais e até os sistemas de defesa de muitos dos Estados são autênticas armas contra a independência desses povos e os seus regimes democráticos.

    O papel da Universidade está em disputa. O que pode e deve ser uma ferramenta do pensamento livre e de análise crítica da realidade tem sido paulatinamente capturada pelo poder económico, reproduzindo um movimento mais geral a que alguns denominam de tecno-oligarquia. O debate sobre o RJIES e a nova agência para a investigação e inovação são estratégicos para Portugal, na medida em que a sua captura por interesses alheios ao bem público constituem uma real perda de autonomia. Um país que desiste de dotar os setores mais qualificados, como a sua comunidade científica, de ferramentas que contraponham a tecno oligarquia que nos governa, é um país que desiste da sua autonomia estratégica num mundo pautado pela globalização das desigualdades e pela guerra.

  • Se isto fosse um exame, o Governo estava em recurso

    Se isto fosse um exame, o Governo estava em recurso

    Milhares de jovens que não se candidatam, outros tantos que não completam a matrícula e mais de metade que desiste ao longo do curso. A receita deste cenário conduz o Ensino Superior rumo a um precipício. Faculdades e universidades são transformadas em instituições inacessíveis ao estudante comum, deixando as famílias com a corda ao pescoço para pagar a propina, o alojamento, os manuais, os materiais e, ainda, a alimentação. O passado, que deveria servir de aprendizagem, serve de inspiração a este Governo. Outrora, o dia a dia demonstrava que Portugal era um terreno inóspito para viver, estudar e sonhar, a melhor solução era emigrar. Tudo isto resultou de escolhas políticas, e o PSD/CDS está, novamente, a repeti-las.

    Após anos de recuperação do direito à educação, em que vimos milhares de famílias com os primeiros filhos e netos licenciados, voltamos a assistir a cursos vazios, com centenas de vagas por preencher em todo o país. Não julguemos, contudo, que este desfecho era imprevisível ou inevitável. Foi, desde sempre, um projeto.

    Depois de repor os exames nacionais, o Governo apresenta agora um anteprojeto para a introdução de provas de literacia e numeracia. Estes exames funcionariam como critérios adicionais para avaliar competências de interpretação de texto, de cálculo e, até, de língua inglesa. Na realidade, esta medida desvirtua o propósito do Ensino Secundário e da sua avaliação contínua. O objetivo deste nível de ensino é, justamente, assegurar o desenvolvimento dessas competências nas suas diferentes disciplinas, e não a imposição de mais provas cuja tendência será desviar o verdadeiro foco da aprendizagem.

    Certamente, não cabe ao Ensino Superior avaliar duplamente os alunos, excluindo à partida todos os estudantes que falhem tais requisitos. Essa postura traduz-se, no fundo, numa elitização e desresponsabilização das instituições, evitando a criação de medidas de formação suplementar que poderiam compensar eventuais lacunas. Uma verdadeira resposta passaria por incluir e formar as gerações de jovens que, seja pela crónica falta de professores ou por manifesta incapacidade económica, não conseguiriam superar tais provas. O acesso ao Ensino Superior não é um mero pormenor do sistema, é, pelo contrário, o pilar definidor de toda a sua atividade e função social no país.

    Como se não bastassem os pregos à porta da faculdade, o resto da estrada está completamente esburacada. Quem, finalmente, consegue entrar, depara-se com um verdadeiro teste de resistência. A impossibilidade de encontrar um quarto a preços comportáveis exige uma batalha diária por um nível de vida minimamente aceitável. Em troca, os estudantes assistem à venda de centenas de edifícios públicos, entregues de mão beijada à especulação imobiliária e ao turismo. A tudo isto soma-se uma Ação Social completamente insuficiente no seu valor e na sua abrangência, cujo impacto real é cada vez mais reduzido e a função cada vez mais desvirtuada, falhando redondamente no apoio aos custos inerentes à frequência do ensino, como os manuais e os materiais.

    Sendo esta a realidade do Ensino Superior, reveja-se tudo, o problema está na lei e não em nós. Pensa assim, certamente, o Ministério liderado por Fernando Alexandre. Entre processos abertos e fechados, o PSD/CDS propõe, para já, rever o RJIES, o RJGDES e o sistema da Ação Social. Grandes siglas para complexos regimes cuja revisão e alteração se afiguram armadilhadas. É verdade que não devemos cair na tentação de uma defesa acérrima da legislação existente. A revisão de leis antigas e, em certos aspetos, desfasadas no tempo não é, por si só, o problema, podendo até fazer parte da solução.

    No entanto, nas propostas de alteração do RJIES, o Governo deixa intocados o regime fundacional e a penetração dos interesses corporativos no Ensino Superior. Na Ação Social, não se antevê qualquer reforço real de financiamento ou alargamento da abrangência das bolsas. Mais grave ainda, noutros anteprojetos, o executivo manifestou a vontade de alterar, às escondidas, o modelo de financiamento do setor. Esta manobra não visa corrigir a suborçamentação crónica, mas sim escancarar as portas ao endividamento estudantil, uma autêntica preparação do terreno para um aumento real das propinas.

    A revisão desenfreada nada resolverá. Exige-se que a prioridade política seja a transformação completa do sistema educativo, para que este seja verdadeiramente democrático, gratuito e inclusivo. Com este Governo, pelo contrário, assistiremos à fixação legal do elitismo e da desigualdade no ensino.

  • A Desvalorização dos Trabalhadores-Estudantes no Ensino Superior em Portugal

    A Desvalorização dos Trabalhadores-Estudantes no Ensino Superior em Portugal

    Em Portugal, estudar e trabalhar deixou de ser exceção para passar a ser regra. Num país que valoriza as qualificações académicas, há quem lute para conseguir continuar os estudos e viver com o mínimo de dignidade.

    De acordo com os dados mais recentes, no ano letivo de 2023/2024, mais de 41 mil estudantes do ensino superior conciliavam os estudos com o trabalho, representando cerca de 9,2% do total de estudantes. Segundo o Idealista, estes foram os valores mais altos da última década. No ano letivo de 2025/2026 estima-se que o número tenha aumentado. Tendo em conta o panorama nacional, é fácil perceber o porquê deste crescimento. Numa economia cada vez mais exigente, onde o custo de vida não acompanha os salários, a capacidade financeira das famílias é baixa. Assim, resta apenas uma solução, trabalhar para pagar os estudos e tudo o que isso acarreta.

    Propinas, renda, transportes, alimentação – a conta aumenta e o ordenado não. Esta conta pesa, principalmente, ao nível do alojamento. A especulação imobiliária que Portugal enfrenta, de Norte a Sul do país, e que o Governo parece não querer resolver, empurra muitos estudantes para o mercado de trabalho como forma de dar continuidade aos estudos. Há casos em que acaba mesmo por ser o motivo de desistência do ensino superior. Esta realidade afeta sobretudo os estudantes deslocados, que se veem forçados a sobreviver longe de casa.

    Há ainda os estudantes sem contrato, que não contam para as estáticas mas que todos sabemos que existem. Sem direitos e proteção, são penalizados duplamente – trabalham para estudar e não podem usufruir de um estatuto que lhes garanta a mínima dignidade académica. Dependem da boa vontade dos professores, que podem, ou não, acreditar na sua palavra.

    A isto soma-se a falta de compreensão por parte dos docentes, que desvalorizam o esforço de quem vai a uma aula depois de um turno de trabalho ou de quem estuda de madrugada porque trabalha durante o dia. Apesar de existir legislação que enquadra o estatuto de trabalhador-estudante, a sua aplicação prática é, muitas vezes, inexistente.

    O ensino superior em Portugal está desenquadrado da realidade dos estudantes. É pensado para um número reduzido de alunos que têm tempo livre total para se dedicarem aos estudos. Os que não se enquadram neste pequeno grupo, vêem-se exaustos, divididos entre prazos e horários laborais, entre exames e turnos, entre o cansaço físico e a pressão psicológica.

    Ainda assim, estes estudantes persistem porque sabem que o ensino superior continua a ser uma das poucas vias de mobilidade social. Batalham todos os dias por um futuro melhor, porque acreditam que o esforço valerá a pena, mas persistir não deveria implicar sacrificar a saúde, o desempenho académico e a dignidade.

    É urgente um grito de revolta. É urgente repensar a estruturação do ensino superior numa sociedade onde trabalhar e estudar é cada vez mais comum. Para isso, devemos começar por reforçar os apoios sociais, garantir o acesso efetivo ao estatuto de trabalhador-estudante, fiscalizar situações de trabalho informal e, sobretudo, promover uma mudança de paradigma dentro das instituições.

    Os Trabalhadores-Estudantes existem e merecem ser reconhecidos!

  • Aqueles que ficaram pelo caminho

    Aqueles que ficaram pelo caminho

    Paira sobre o Ensino Superior o espectro do cavaquismo. Em 1992, o governo do PSD, liderado por Cavaco Silva, abria as portas a um novo modelo de financiamento que colocava as famílias como parte do suporte financeiro das universidades. Era a quebra de um princípio: o de que o Ensino deveria ser gratuito e universal em todos os níveis e de que a justiça social não se faz através do acesso aos serviços públicos, mas sim por via dos impostos.

    Anos mais tarde, sucederam-se governos do PS e do PSD e sentimos na pele a crise económica e, depois, a pandemia. Ao longo deste tempo, as propinas, com altos e baixos, foram sempre uma preocupação dos estudantes. Apesar da redução do valor e do congelamento em 2022, a propina manteve-se.

    Chegamos a 2025. As propinas, até ao ano letivo de 2024/25, encontravam-se fixadas em 697 euros nas licenciaturas, apesar das ponderações levantadas pelo governo do PSD sobre o descongelamento ainda em 2024. Eis que, no início do novo ano letivo, depois de terem acabado com a FCT e de perpetuarem o subfinanciamento da ciência, também herdado de governos do PS, o espectro do cavaquismo ganha forma e acomete contra o congelamento das propinas, revelando um novo aumento e a previsão de que este valor continuará a subir.

    Um estudo do ISCTE, de 2024, concluiu que estudar no Ensino Superior custava, em média, 900 euros por mês. Outro estudo da Universidade Nova revelou que os estudantes deslocados enfrentam um acréscimo de cerca de 200 euros mensais e que o valor real das bolsas só cobre 20% das despesas. No Observatório do Alojamento Estudantil, encontramos valores médios de 500 euros por um quarto em Lisboa, 400 euros no Porto e 300 euros em Coimbra.

    As opções governativas do PSD, bem como o legado das governações do PS, refletem-se no cenário que hoje se observa. Em 2024, mais de 10% dos estudantes desistiram do Ensino Superior por falta de condições económicas. Também não é coincidência que o número de estudantes-trabalhadores tenha aumentado, representando já cerca de 10% dos estudantes em 2023/24.

    Nada disto é obra do acaso: é consequência do desinvestimento e do regime fundacional que sustenta o Ensino Superior público. São as propinas, as taxas e emolumentos, o alojamento, a alimentação e as bolsas que, em média, não ultrapassam os 136 euros mensais. Os apoios são insuficientes e não permitem cobrir as despesas dos estudantes com rendimentos mais baixos e da classe média.

    Estes são os resultados de deixar o Luís trabalhar: a aceleração da degradação das Instituições de Ensino Superior, iniciada pelo PS, e o abandono total dos princípios de Abril. A diminuição do número de estudantes comprova que os sucessivos governos, em particular o atual, liderado por Montenegro, nutrem um repúdio pelo Ensino Público que garante à filha da trabalhadora das limpezas a possibilidade de estudar. Sabem bem que a universalidade e a gratuitidade do ensino público permitiram que o direito a ser doutor não ficasse reservado apenas aos netos de Belmiro de Azevedo.

    Contudo, desse rancor fazemos resistência e jamais abdicaremos de qualquer direito. Lutaremos também por aqueles que ficaram pelo caminho.