Por todas as Maricelas, além de fronteiras








 O globo que habitamos encontra-se geograficamente dividido em pedaços de “terra”, e em pequeníssimas porções às quais chamamos casa. Mas esta divisão não é apenas numérica ou fruto de batalhas e conquistas, ou colonização de povos, é uma divisão estrutural, para além do físico e palpável, é um impasse invisível mas completamente notório, seja no passado ou no contemporâneo. O planeta que habitamos, o “nosso” planeta, não é partilhado, não é comum a todos e não é casa de todos, infelizmente. Deve-se a muitos fatores mas nomeadamente ao fator “origem”.

   As oportunidades e estilos de vida são distribuídos, de forma desigual, pelas terras, pelas cidades, aldeias, subúrbios, etc., e, em tempos de guerra, de escuridão e de falta de oportunidades, há uma necessidade de sair, abandonar o ponto de partida em busca de algo melhor, de oportunidades, de casa.

   Além de termos uma casa comum, esta não é acessível para todos, seja pelos altíssimos valores de renda, ou pelo muro invisível que nos separa, pelas cabecilhas e bestas que nos dominam, controlam e nos exploram.

   Com isto, pretendo introduzir a dificuldade e violência que existem no processo dos movimentos migratórios, daqueles que procuram oportunidades e uma vida melhor, que não encontram no seu local de origem, seja pelo seu país estar em guerra,ou por ser economicamente pobre ou onde o dinheiro se encontra acumulado apenas numa pequeníssima parte da população, numa elite.

   Uma obra que considero interessante no seio desta realidade é The Land of Open Graves: Living and Dying on the Migrant Trail, uma obra do antropólogo Jason De León, publicada em 2015, que nos revela experiências brutais dos migrantes que tentam cruzar a fronteira entre o México e os Estados Unidos através do deserto de Sonora, considerada uma das rotas mais mortíferas do mundo. É um rasto de ossadas e histórias que demonstram o suor de quem tenta a travessia e daqueles que foram abandonados e não sobreviveram, deixados sem qualquer empatia ou dignidade, como se de nada se tratassem e como se a vida humana deixasse de ser significante.
  
Além disso, o antropólogo destaca os perigos da política americana conhecida como Prevention Through Deterrence (política implementada na década de 90, que força os migrantes a cruzar as zonas mais perigosas do deserto como único caminho possível, aumentando as probabilidades de morte), e a “necroviolência”, uma violência que se estende para além da morte, negando dignidade aos corpos daqueles que não sobreviveram, deixando-os sem rituais fúnebres ou reconhecimento formal da sua morte, o que é completamente desumano.

   A Operation Gatekeeper, lançada em 1994 durante a administração de Bill Clinton, pela U.S. Border Patrol, tinha como objetivo reduzir a migração irregular na fronteira entre San Diego (Califórnia) e Tijuana (México).

Na prática, tratou-se de uma forte  militarização da fronteira urbana, com três pilares principais:

Construção de um muro físico em áreas urbanas (especialmente San Diego);

Aumento de patrulhas e agentes da Border Patrol;

Uso de tecnologia de vigilância (sensores, iluminação, câmeras).

Antes de 1994, muitos migrantes atravessavam por zonas urbanas relativamente mais seguras, mas depois da Operation Gatekeeper, as rotas foram centralizadas no deserto de Sonora que é perigoso naturalmente.

Ou seja, estas mortes não são acidentais mas sim consequência direta de uma política do Estado. Esta política permite ao Estado dizer que não está a matar ninguém e que as mortes são causadas pelo “ambiente natural”.

Esta foi a operação origem de todas as outras.

   Um dos testemunhos mais marcantes desta obra repleta de notas de campo, com quem Jason teve a oportunidade de falar, foi  Maricela, uma mulher que tentou atravessar a fronteira com o seu filho pequeno, para que ele pudesse ter um futuro melhor, mas que não conseguiu. Como muitas mulheres migrantes, Maricela enfrentou não apenas os perigos do deserto como o calor intensivo ou falta de água, mas também o risco constante de abuso sexual e violência, algo frequente, nomeadamente para mulheres que não falam a língua daqueles que dominam as fronteiras e, portanto, confiam e obedecem aos mesmos em troca de uma falsa segurança. De León enfatiza o facto de muitas mulheres tomarem anticoncepcionais antes da viagem, prevendo a probabilidade de serem violadas, o que infelizmente acontece. Está, portanto, mais uma vez presente a infelicidade da constante submissão (involuntária) destas mulheres e a sua objetificação, vistas para servir e satisfazer os desejos alheios em troca de uma oportunidade de viver, ou de tentar concluir a rota para um futuro mais colorido.

   Isto é uma consequência direta das políticas fronteiriças que forçam os migrantes a procurar rotas cada vez mais perigosas, onde estão mais vulneráveis à exploração e ao abuso. Jason expõe a forma como as políticas de imigração dos EUA não só desumanizam os migrantes, mas também exacerbam a violência de género.

   A militarização das fronteiras inclui o uso de tecnologia avançada, como drones, sensores de movimento e torres de vigilância, e policiamento pesado nas áreas urbanas, o que torna este caminho bastante perigoso e cheio de dificuldades.

  Maricela, e muitas outras que se encontram na mesma luta, fazem-no com receio, proveniente do sistema machista e patriarcal em que vivemos. Ela foi abusada por traficantes, e agredida durante a travessia. Surge, então, involuntariamente, uma certa dependência em homens para atravessar o deserto, pois o sistema assim funciona, como uma troca de “proteção” por submissão, pois as relações de poder são extremamente desiguais.

Maricela, além de  migrante, é mulher, pobre e racializada, o que lhe confere uma maior vulnerabilidade e uma maior exposição à violência, por pertencer a minorias estruturais.

Esta submissão não é e nunca foi um aspeto natural e biológico, mas sim um fator proveniente do próprio sistema em que vivemos.

   Apesar de ter havido uma diminuição recente das travessias irregulares, os números continuam altíssimos. A revista VEJA refere que, em 2025, foram registadas cerca de 240 mil detenções na fronteira EUA–México, o valor mais baixo desde os anos 1970. No entanto, em 2022 tinham sido contabilizadas cerca de 2,2 milhões de detenções, o que demonstra a grande afluência de fluxos migratórios.

   As consequências destas políticas fronteiriças brutas, refletem-se também no aumento das mortes e desaparecimentos. A ONU News alerta para o crescimento do número de migrantes mortos em rotas migratórias, relevando que muitos corpos permanecem sem identificação. A fronteira entre os Estados Unidos e o México é atualmente considerada uma das rotas terrestres mais perigosas do mundo, tendo registado mais de 686 mortes e desaparecimentos apenas em 2022. Na obra, é possível ver imagens da forma como os restos humanos são deixados pelo deserto, sem qualquer dignidade.

   O Le Monde Diplomatique Brasil destaca casos de violência sexual, sequestro e exploração praticados por redes criminosas ao longo das rotas clandestinas.

   O Expresso refere um aumento de 70% nos casos de violência sexual contra migrantes em cidades fronteiriças mexicanas, além de 395 vítimas de violência e 129 migrantes sequestrados.

   Além disso, é de notar que o aumento da migração intensificou discursos políticos que associam os migrantes a ameaças à segurança, contribuindo para processos de desumanização; mas serão eles a verdadeira ameaça? Ou as bestas que legislam para que lhes seja quase impossível alcançar uma vida melhor?

   Abaixo os ICE e tudo aquilo que é produto e constitui este ataque fronteiriço, para que possamos coabitar o planeta que a todos nós pertence, independentemente do nosso ponto de partida e estatuto dentro do ridículo sistema hierárquico que nos conduz. Pelas mulheres, para que possam procurar uma vida melhor, terem um trabalho digno e viverem, sem medo, sem serem vítimas destes atos e deste machismo perverso, para que sejam livres, sempre!


Referências Bibliográficas e Webgráficas:

https://archive.org/details/the-land-of-open-graves-living-and-dying-on-the-mi…/mode/2up

https://www.undocumentedmigrationproject.org/background

https://veja.abril.com.br/mundo/eua-tem-menor-numero-de-travessias-ilegais-na-fronteira-com-o-mexico-desde-anos-1970

https://news.un.org/pt/story/2023/09/1820287

https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvrqykxx4no

https://diplomatique.org.br/sequestro-violencia-sexual-contra-migrantes-fronteira-estados-unidos

https://expresso.pt/internacional/2024-02-24-Onda-de-violencia-contra-migrantes-causa-alarme-na-fronteira-norte-do-Mexico-b4892b56