A narrativa hegemónica apresenta a Inteligência Artificial como uma evolução inevitável e autónoma, uma maré tecnológica incontestável à qual a sociedade apenas se pode adaptar. Esta formulação não é apenas errada: é ideológica. A IA não é uma força da natureza nem um sujeito dotado de vontade. Pelo contrário, está a ser usada como um instrumento de concentração de capital e uma arma na luta pela distribuição do valor produzido, utilizada no momento presente para reverter décadas de poder negocial da classe trabalhadora.
A chantagem do algoritmo é apresentada pelos relatórios da Goldman Sachs ou do FMI. Não são meras estatísticas neutras de “progresso tecnológico”, mas os indicadores de uma ofensiva deliberada. A consequência começa a ser visível: nos EUA a IA e a automação são a justificação para a redução de 14% na contratação de jovens em setores expostos e são usadas para justificar despedimentos massivos. Sob o pretexto da automação, o capital instrumentaliza a ameaça da substituição. O medo da obsolescência torna-se uma ferramenta disciplinar perfeita para comprimir salários, normalizar a precariedade e fragmentar a organização coletiva. O objetivo do capital não é a mera produtividade. É o controlo absoluto, a preferência pelo custo fixo e submisso da máquina face à imprevisibilidade do trabalhador organizado.
A grande ironia, recentemente exposta pelo MIT, é que o trabalho humano ainda é mais barato do que a máquina em 77% das tarefas. A pressa corporativa em automatizar funções, mesmo quando é financeiramente irracional a curto prazo, revela a verdadeira urgência do sistema: a eliminação da agência laboral é um fim político em si mesmo, independentemente da fatura económica.
Por baixo do pânico em torno do desemprego, opera uma das maiores e mais rápidas concentrações de meios de produção da história do capitalismo. Os ganhos de produtividade gerados pela tecnologia não estão a ser distribuídos pela sociedade, mas sim capturados por um oligopólio reduzido (Nvidia, Microsoft, Google, Amazon e poucas mais) que monopoliza os três pilares do novo ecossistema: os modelos algorítmicos, a extração de dados e a infraestrutura física de computação.
Estabelece-se, assim, um novo rentismo tecnológico. Quando uma PME portuguesa ou um trabalhador precário adotam ferramentas de IA, passam a pagar uma renda vitalícia a quem detém os servidores, ao mesmo tempo que o seu trabalho diário fornece, gratuitamente, os dados que treinam os modelos que amanhã os poderão substituir. O valor migra silenciosamente da base produtiva para o topo da cadeia financeira.
A atual tripla bolha em torno da IA (desvalorização bolsista, a capacidade ociosa de servidores e de hype) não é uma falha de mercado. É o sintoma de um capital sobreacumulado que, sem rentabilidade suficiente na economia real, se atira a uma promessa tecnológica hiperalavancada. Os sinais de alarme são evidentes: emissões explosivas de dívida, disparo de 40% nos seguros de crédito (CDS) e alertas diretos do Banco de Inglaterra sobre a vulnerabilidade de bancos e fundos de pensões.
O padrão histórico é claro: o risco constrói-se coletivamente, mas o lucro extrai-se de forma privada. Se a bolha rebentar (e todas as bolhas criadas por capital fictício rebentam), não serão os grandes acionistas de Silicon Valley a absorver o choque. As perdas serão descarregadas sobre as poupanças públicas, os fundos de reforma dos trabalhadores e as economias periféricas, cujas condições de crédito irão colapsar. A farra privatiza-se, a conta socializa-se. Quem financia a infraestrutura dita as regras do futuro, mas quem paga a fatura da crise não recebeu convite para a festa.
A resposta da classe trabalhadora não pode ser um ludismo resignado ou ingénuo. A tecnologia possui um potencial emancipatório real, a libertação do trabalho repetitivo, mas esse horizonte só é alcançável com a rutura do seu modelo de propriedade. Isto exige escolhas políticas concretas: a taxação drástica dos ganhos de produtividade gerados por IA, a desmontagem dos monopólios de infraestrutura em nuvem, a garantia de uma transição justa para os trabalhadores afetados e a posse democrática dos modelos fundacionais.
A passividade significaria permitir a maior transferência de poder económico das últimas décadas, disfarçada de progresso neutro. A luta não é contra o código, é contra quem concentra a riqueza que eles geram e a infraestrutura que nos aprisiona.

