“Ni uma Maricarmen más”








Há notícias que nascem locais e acabam globais. Maricarmen Abascal tem 87 anos e viveu 70 anos num piso do bairro de Retiro, em Madrid, cujo contrato foi assinado pelo pai em 1956 (El País, 2026). Em 2018, a imobiliária Urbagestión comprou o mesmo edifício e passou a afirmar que o contrato devia ter caducado em 2007 (El País, 2026; El Salto, 2026). Este era um contrato de cerca de 500€ por mês, ao que a imobiliária propôs alterar o preço arbitrariamente para 1.650€ por mês, valor muito superior à reforma de Maricarmen (Euronews, 2026a). Em solidariedade para com esta situação, uma escritora anónima ofereceu-se para cobrir a diferença da renda, no entanto a proprietária recusou-se a assinar o novo contrato (El País, 2026). Devido a esta recusa, houve quatro tentativas de despejo e, à quarta, a 23 de setembro, Maricarmen saiu de casa numa maca e foi internada no hospital (Reuters, 2026).

Este seria um caso individual se não fosse a realidade de um continente. Os preços da habitação subiram 5,1% na União Europeia no primeiro trimestre de 2026. O Eurostat assinala que preços e rendas atingiram o nível mais alto de décadas. Em Madrid, a renda média supera os 21€ por metro quadrado e o preço da habitação em Espanha subiu 17,2% em junho (Euronews, 2026b). Portugal não é exceção à regra. O Índice dos Preços da Habitação do INE subiu 17,8% no primeiro trimestre de 2026 (ECO, 2026). Isto significa apenas uma coisa: menos casas vendidas a preços mais altos. A fatura, esta recai principalmente sobre os jovens. Em 2025, a idade média de saída de casa dos pais na União Europeia foi de 26 anos e, em Portugal, já chegou aos 30 anos em 2022.

Três dias depois do despejo de Maricarmen, o Sindicato de Inquilinas convocou uma manifestação sob o lema “Ni una Maricarmen más”. Esta marcha acabou por encher o centro de Madrid com milhares de pessoas e terminou com uma acampada na praça Puerta del Sol. O que começou com cerca de 100 tendas na primeira noite, chegou às 1.248 tendas a 30 de setembro (Demócrata, 2026a; elDiario, 2026a). Mais de mil pessoas dormiram nesta praça, com assembleia de boas-vindas, comissões de limpeza, distribuição de comida e de baterias para o exercício de teletrabalho (Infobae, 2026).

Nesta cidade orgânica que emergiu da capital espanhola, os acampados batizaram os corredores com nomes como “Avenida Maricarmen”, “Avenida dos Travestis” e “Praça das Precárias” (Demócrata, 2026b). Entre as tendas, encontram-se hasteadas bandeiras da Palestina, bandeiras feministas e pelos direitos das pessoas trans (Infobae, 2026). Casa é onde todas as lutas se encontram. Por isso, é natural que a causa LGBTQIA+ e outras causas sociais ocupem o seu lugar ao lado dos inquilinos e da solidariedade internacional.

A 29 de setembro, o executivo de Sanchez apresenta dois decretos-lei relacionados com habitação para aprovação em Congresso. Um deles propõe o prolongamento até 2030 do escudo anti-despejos de pessoas vulneráveis e sem alternativa habitacional. Este documento regula, ainda, o arrendamento de temporada e prevê uma prorrogação de 2 anos dos contratos em vigor até 2028. Foi também apresentada uma medida, impulsionada pelo Sindicato das Inquilinas em articulação com o partido Sumar, que exige a renovação automática dos contratos de arrendamento (elDiario, 2026b). A votação em Congresso concretizou-se a 2 de outubro, onde Junts deu a mão ao Vox para rejeitar estas propostas (El Plural, 2026). A rua tinha ganho um passo e a direita cortou-lhe as pernas.

Ainda assim, Portugal e a Europa podem aprender muito com Espanha sobre esta mobilização cívica na luta por direitos sociais. Embora acampamentos não resolvam sozinhos uma crise da habitação, a orientação política é pressionada a mudar quando a sociedade civil deixa de pedir licença. Uma mulher de 87 anos pediu aos cidadãos que lutassem e dezenas de milhares responderam nas ruas: o Sindicato de Inquilinas, os bombeiros, os bairros e organizações não governamentais juntaram-se numa praça pública para exigir o cumprimento de um direito constitucional.

Em Portugal, falta-nos a persistência na convergência de causas que Espanha demonstrou. É necessário aplicar a sua lição: juntar quem é expulso do bairro, quem partilha quarto, quem não tem rede familiar que o acolha, quem arrenda, quem compra, quem cuida dos idosos e quem quer transformar o desconforto individual numa exigência coletiva. Sendo a habitação um direito, deve ser protegido como qualquer outro — em conjunto e à vista de todos — para que não se repita nem uma Maricarmen mais.


Referências Bibliográficas: