As manhãs de sábado, desde que faço vida a mais de 300km de casa, ganharam um novo sentido. Acordo, depois de uma noite de sono profundo na cama que me viu crescer. Os lençóis aparentam uma outra maciez, o odor é sereno e purifica-me o âmago. Quando subo as persianas a paisagem que se estende é a mesma: o manto verde, com casas amontoadas de tons claros e telhas laranja, e, através da brecha deixada pelos sobreiros e carvalhos do baldio, ainda vejo parte da bancada de cimento do velhinho Abel Alves.
Abro a janela e respiro, na tempestade ou na bonança, com a certeza de que inspiro o mesmo aroma que me palpitava nas narinas na infância e acalmava as hormonas da adolescência. São manhãs que não correm, andam, a um passo lento de quem não quer chegar cedo, mas de quem quer aproveitar a caminhada.
Amadureci neste vale e o meu crescimento acompanhou os anos que sucederam a grande derrocada económica das indústrias do Vale do Ave nos anos 90 e a hecatombe provocada pela crise de 2008. Foram muitos os encerramentos de fábricas e os despedimentos que levaram à aparição de novos “vazios urbanos industriais” (Ferreira, 2017) no centro da cidade. Essas transformações sociais e urbanas aceleraram com a crise que reorganizou a morfologia urbana tirsense. Se alguns dos vazios urbanos foram transformados em Naves Culturais, com aconteceu com a antiga “Fábrica do Telles”, atualmente, Fábrica de Santo Thyrso, reflexo da “estetização do trabalho” (Reis, 2016), outras, fruto da “transferência da produção para zonas onde a força de trabalho é mais barata e desregulada” (Ibidem), foram transformados em Retail Parks modernos e com grandes parques de estacionamento para automóveis.
A transformação do espaço urbano em Santo Tirso, com o declínio das indústrias, cimentou – literalmente – o urbanismo pós-moderno como ordem. O asfalto tornou-se rei e senhor e contagiou todo o território. O verde das árvores que se erguiam no recinto da feira municipal, por exemplo, somente ficaram preservadas na minha memória e dos meus companheiros de rua, congeladas no tempo, não muito longínquo, em que usávamos as sombras das árvores como cobertura para os jogos de futebol improvisados nas férias grandes.
A fábrica onde trabalhavam os dois irmãos mais velhos da minha mãe, a minha tia, esposa de um desses irmãos, e onde havia trabalhado o meu criativo avô, fechou nesse processo de decadência industrial na sequência da crise, que homogeneizou a “acumulação flexível” (Harvey, 1990) como modelo económico e de sociedade pós-subprime. Baseada no setor financeiro e na deslocalização das indústrias, a acumulação flexível impede-nos de produzir e encerra de vez o que restava do modelo fordista, transferindo-nos para uma sociedade de importadores e consumidores e trabalhadores precários do setor terciário.
Da opulência dos grandes industriais, sobraram as suas propriedades pessoais e as coleções de carros topo de gama, além do “bom nome” das famílias. Para os trabalhadores que labutavam por um salário que nunca refletiu a força real do seu trabalho, sobraram as lembranças dos dias na montagem e na confeção, para que os seus filhos pudessem estudar e ter uma outra vida, longe das máquinas, longe do vapor e dos dentes afiados das roldanas. Esta é a história dos meus tios e dos meus avós, e de muitos outros, que durante décadas foram carne para canhão dos industriais do Norte e que, após infâncias perdidas para a exploração, foram os mais afetados pela crise e pela transfiguração da economia ocidental.
No espaço onde antes existia a fábrica, hoje, ergueram a bandeira do imperialismo, o grande “M” amarelo que se espalhou pelo mundo, símbolo da rendição dos povos1. Temos alcatrão, muito alcatrão, e, ironicamente, na nova travessia que cruza a antiga unidade fabril, a placa da nova rua conserva a recordação dos “Trabalhadores do Arco”. É uma réstia de memória coletiva, na nova estrada que serve o tórrido e desarborizado, Retail Park, ostentado pelo presidente da Câmara Municipal como uma obra para “revitalizar o comércio”2, afirmação à qual acrescento: revitalizar o comércio multinacional e matar o comércio local.
É o urbanismo cinzento, ultra artificializado, impessoal e para benefício das multinacionais que se instalam apaniguados pelas borlas fiscais e facilitismos políticos vantajosos.
Há, apesar de tudo isto, uma cidade, presente nas pessoas, resguardada nas vozes e nos dizeres, que me remete, sem qualquer saudosismo primário, mas com uma nostalgia amena, para os dias intermináveis de verão com o meu amigo Henrique, hoje longe e a viver no norte da Jutlândia. Há uma cidade que me leva para os finais de tarde de treino no pavilhão municipal, onde mesmo com chuva e vento, íamos a pé, de mochila a tiracolo. A cidade que me recorda com uma sincera e formosa saudade, as tardes a brincar em tronco nu nos meus avós, do cheiro do fumo das queimadas no outono, do verde suculento do monte em março e do orvalho que cobre o campo em frente à minha casa nos meses de inverno.
Sempre que volto a casa, aquela que será sempre a minha casa, onde morei desde que me conheço e onde viverei eternamente, pelo menos enquanto a alma não tiver de existir sempre pregada ao nosso corpo e a podermos deixar espalhada por vários cantos da nossa vida, nesses cantos que fazem sentido, onde nem sempre fomos felizes, mas onde o final do dia é sempre mais descomplicado e dócil.
Nesta manhã de um outubro atípico, mais quente que o normal, numa poltrona do salão da minha cabeleireira de sempre, na rua onde cresceu o meu pai, que escrevo, desajeitadamente, esta ode a Santo Tirso. É nesta poltrona, com a rádio comercial, os secadores e os murmúrios das senhoras que arranjam os seus cabelos, como eco, que reflito sobre o que sou através da lente do, “de onde sou”, e isso diz tanto ou mais sobre nós do que uma outra biografia.
Sou do Norte de Portugal, do Vale do Ave e da cidade de Santo Tirso, entrincheirada num Vale e irmã dos rios Ave e Leça. Sou também irmão dos rios. Sou daqui.
- Gigante têxtil falida com 10 hectares já tem Mercadona e McDonald’s – Jornal Negócios, 0 de dezembro de 2020. Fonte: https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/imobiliario/detalhe/gigante-textil-falida-com-10-hectares-ja-tem-mercadona-e-mcdonalds. ↩︎
- Alberto Costa inaugurou espaço comercial na antiga Arco Têxteis – Câmara Municipal de Santo Tirso, 15 maio 2024. Fonte: https://www.cm-stirso.pt/conhecer/comunicacao/noticias/noticia/alberto-costa-inaugurou-espaco-comercial-na-antiga-arco-texteis ↩︎
Referências Bibliográficas:
- Harvey, D. (1990). The Condition of Post-Modernity: An Enquiry into the Origins of Cultural Change. Blackwell Publishers.
- Ferreira, N. (2017). Vazios Urbanos Industriais: A Génese, a Ascensão, o Apogeu e o Colapso Paradigma Social, Económico, Patrimonial e Ambiental O caso do Vale do Ave de Famalicão. Universidad de Sevilla.
- Rei, M. (2016). Do operário ao artista: uma etnografia em contexto industrial no Vale do Ave. Deriva.
