Uma mulher pergunta ao tempo quanto tempo o tempo tem








Apesar de constituírem metade da população mundial, as mulheres continuam a viver numa realidade marcada por estruturas sociais predominantemente masculinas. Esta desigualdade torna-se particularmente visível no domínio do trabalho e na forma como este condiciona a participação social.

A distribuição do tempo entre homens e mulheres permanece profundamente desigual. Sugiro um breve exercício de imaginação: são seis da manhã quando acorda. Às nove já está no trabalho, depois de transportes públicos atrasados ou de um trânsito interminável. Almoça apressadamente e, antes das duas da tarde, já retomou funções. Sai às seis, mas o dia está longe de terminar — segue-se mais uma hora de deslocação. Pelo caminho, passa a buscar os filhos. Quando finalmente chega a casa, já são quase oito da noite. Entre banhos, jantar e tarefas domésticas, o tempo desaparece. Quando se deita, perto da meia-noite, o dia seguinte já está à porta. Ecoa a pergunta: os espaços associativos, coletivos e/ ou partidários existem para quem?

As horas de trabalho feminino — remunerado e, sobretudo, não remunerado — limitam a possibilidade de participação em associações, coletivos ou partidos políticos. Esta limitação traduz-se, por sua vez, numa menor representação feminina nesses espaços, contribuindo para a perpetuação de estruturas patriarcais. É, no fundo, um ciclo que se alimenta a si próprio. Os dados mais recentes disponíveis para Portugal, com base no Inquérito Nacional aos Usos do Tempo, mostram que as mulheres dedicam, em média, mais uma hora e quarenta e cinco minutos por dia ao trabalho não remunerado do que os homens. Esta diferença no uso do tempo tem consequências diretas na disponibilidade para a vida social e cívica, ajudando a explicar a menor presença feminina em espaços de participação coletiva.

Ao longo do tempo, esta realidade contribuiu para a consolidação de dois padrões preocupantes. Por um lado, os espaços de decisão continuam a não refletir uma verdadeira paridade de género, sendo maioritariamente ocupados por homens. Por outro, muitas mulheres não se reconhecem nesses espaços nem os percecionam como lugares que lhes pertencem, desenvolvendo, ainda que de forma inconsciente, mecanismos de autoexclusão.

Este ciclo — trabalho, tempo, presença e representação — é persistente e manifesta-se de múltiplas formas. Combatê-lo exige não apenas reconhecer a desigualdade, mas também criar condições reais para a participação feminina. A presença das mulheres nestes espaços é, por isso, particularmente urgente, sobretudo em contextos não metropolitanos, onde estas dinâmicas tendem a ser mais acentuadas.

Enquanto o tempo das mulheres continuar a ser ocupado por trabalho invisível, a igualdade será apenas uma ilusão conveniente. Não basta abrir portas nos espaços de decisão — é preciso garantir que existe tempo real para as atravessar. Caso contrário, continuaremos a confundir ausência com desinteresse e desigualdade com escolha.