No estudo das Relações Internacionais ensina-se, desde o primeiro dia, o grande dogma da nossa diplomacia: os três eixos da política externa portuguesa. Aprendemos que Portugal se equilibra no mundo através do eixo Europeu, do eixo Atlântico e do eixo Lusófono. Esta geometria perfeitinha é repetida por todos os governos para justificar, na prática, quase qualquer decisão.
Mas basta olhar para o Médio Oriente hoje para perceber que a este triângulo falta um pilar essencial. Falta-lhe o eixo da decência. E a sua ausência expõe a hipocrisia de um Estado que fala em paz, mas que na prática facilita a guerra.
Olhemos para o chamado eixo Atlântico. Historicamente vendido como uma aliança de segurança mútua com os Estados Unidos, transformou-se num sinónimo de subserviência acrítica. A Base das Lajes, nos Açores, é o retrato perfeito desta relação. Em vez de ser gerida como um ativo de um Estado soberano, tem funcionado como uma passadeira vermelha para os interesses bélicos norte-americanos.
A escalada de violência que assistimos hoje, com as sucessivas agressões e provocações dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão e outros países da região, não acontece num vácuo. Acontece com a conivência de aliados que silenciam as violações do Direito Internacional. Numa altura em que o Estado israelita atua com total impunidade, servindo de braço armado dos interesses ocidentais no Médio Oriente, qual é o papel de Portugal?
A decência de um governo mede-se aqui. Mede-se pela coragem de exigir que o Direito Internacional não seja apenas um manual de boas maneiras aplicado a vulso aos nossos inimigos, mas uma regra de ouro exigida também aos nossos “aliados”. Onde está a decência de um governo português que permite que infraestruturas nacionais, como as Lajes, possam servir de escala logística, apoio ou corredor aéreo para o bombardeamento de outros países soberanos?
Um Estado decente não passa cheques em branco. Um Estado decente e soberano utiliza o pouco ou muito peso diplomático que tem para vetar o uso do seu território em manobras de agressão imperialista. Consentir que a nossa geografia sirva de rampa de lançamento para os ataques americanos e israelitas não é pragmatismo diplomático nem cumprimento de alianças. É, isso sim, cumplicidade com a barbárie.
Os três eixos da nossa política externa de nada servem se não estiverem ancorados na defesa intransigente da paz, dos Direitos Humanos e da autodeterminação dos povos. Enquanto a nossa diplomacia continuar a ser o braço administrativo dos interesses militares de Washington, continuaremos a ser um país sem o eixo da decência. E já é tempo de o exigirmos.

