Em Portugal, estudar e trabalhar deixou de ser exceção para passar a ser regra. Num país que valoriza as qualificações académicas, há quem lute para conseguir continuar os estudos e viver com o mínimo de dignidade.
De acordo com os dados mais recentes, no ano letivo de 2023/2024, mais de 41 mil estudantes do ensino superior conciliavam os estudos com o trabalho, representando cerca de 9,2% do total de estudantes. Segundo o Idealista, estes foram os valores mais altos da última década. No ano letivo de 2025/2026 estima-se que o número tenha aumentado. Tendo em conta o panorama nacional, é fácil perceber o porquê deste crescimento. Numa economia cada vez mais exigente, onde o custo de vida não acompanha os salários, a capacidade financeira das famílias é baixa. Assim, resta apenas uma solução, trabalhar para pagar os estudos e tudo o que isso acarreta.
Propinas, renda, transportes, alimentação – a conta aumenta e o ordenado não. Esta conta pesa, principalmente, ao nível do alojamento. A especulação imobiliária que Portugal enfrenta, de Norte a Sul do país, e que o Governo parece não querer resolver, empurra muitos estudantes para o mercado de trabalho como forma de dar continuidade aos estudos. Há casos em que acaba mesmo por ser o motivo de desistência do ensino superior. Esta realidade afeta sobretudo os estudantes deslocados, que se veem forçados a sobreviver longe de casa.
Há ainda os estudantes sem contrato, que não contam para as estáticas mas que todos sabemos que existem. Sem direitos e proteção, são penalizados duplamente – trabalham para estudar e não podem usufruir de um estatuto que lhes garanta a mínima dignidade académica. Dependem da boa vontade dos professores, que podem, ou não, acreditar na sua palavra.
A isto soma-se a falta de compreensão por parte dos docentes, que desvalorizam o esforço de quem vai a uma aula depois de um turno de trabalho ou de quem estuda de madrugada porque trabalha durante o dia. Apesar de existir legislação que enquadra o estatuto de trabalhador-estudante, a sua aplicação prática é, muitas vezes, inexistente.
O ensino superior em Portugal está desenquadrado da realidade dos estudantes. É pensado para um número reduzido de alunos que têm tempo livre total para se dedicarem aos estudos. Os que não se enquadram neste pequeno grupo, vêem-se exaustos, divididos entre prazos e horários laborais, entre exames e turnos, entre o cansaço físico e a pressão psicológica.
Ainda assim, estes estudantes persistem porque sabem que o ensino superior continua a ser uma das poucas vias de mobilidade social. Batalham todos os dias por um futuro melhor, porque acreditam que o esforço valerá a pena, mas persistir não deveria implicar sacrificar a saúde, o desempenho académico e a dignidade.
É urgente um grito de revolta. É urgente repensar a estruturação do ensino superior numa sociedade onde trabalhar e estudar é cada vez mais comum. Para isso, devemos começar por reforçar os apoios sociais, garantir o acesso efetivo ao estatuto de trabalhador-estudante, fiscalizar situações de trabalho informal e, sobretudo, promover uma mudança de paradigma dentro das instituições.
Os Trabalhadores-Estudantes existem e merecem ser reconhecidos!

