A Crise da Emancipação








Como a crise da habitação em Portugal atrasa a vida dos jovens

Saíram dados alarmantes: o preço das casas em Portugal subiu 180% desde o ano de 2015. Os dados fornecidos pela Eurostat apontam um aumento significativo do valor dos imóveis no nosso país, valor este que ultrapassa a média da União Europeia. Somos, mais uma vez, confrontados com a realidade posta em números: se não dá para pagar é com certeza uma casa portuguesa.


No Jornal Económico podemos ler o seguinte título de uma notícia publicada a 10 de abril deste ano: Preços das casas subiram mais do dobro dos salários desde 2019. Vemos nas notícias a nossa frustração por números: casas que o salário mínimo não paga e quartos que o salário médio pode sonhar pagar; vemos nas notícias que este país não é liderado por gente que tem as preocupações da classe trabalhadora como farol da sua ação governativa. Abrir um jornal é quase como um teste à nossa paciência: vamos ler o que sentimos na carteira, mas vindo de umas instituições mais sérias que as nossas lamentações e com palavras mais aveludadas.


A governação neoliberal deixou-nos isto: um país que vende património do estado ao invés de o utilizar para habitação com rendas controladas. Os consecutivos governos do centro viram esta crise a chegar e nada fizeram para a travar, e agora a governação PSD – CDS-PP pegou na pá que o PS deixou e começou a cavar mais fundo. Parece exagero? Vamos então ao jornal Expresso e ler a notícia que saiu no primeiro dia do mês de abril do presente ano: Desde que Luís Montenegro tomou posse, preço das casas ainda não parou de aumentar: está a subir há sete trimestres consecutivos. Nesta mesma notícia podemos ler que se prevê que o preço as casas continue a aumentar durante 2026.


Um jovem que viva e trabalhe em Portugal está refém da ganância do senhorio que vê o seu imóvel não como o bem essencial que este é, mas sim como uma forma de obter um rendimento fácil; está refém das empresas que compram tudo o que é prédio para arrendarem a preços que não são para os salários que este país nos paga. O jovem português médio está refém de uma ansiedade com nome: a crise da habitação.

Quando falamos da crise da habitação falamos também do atraso na emancipação dos jovens deste país. Em 2025, escrevia-se na Sic Notícias que os jovens portugueses são os sétimos que mais tarde saem de casa dos pais na União Europeia. Temos aqui mais um número alarmante: 29 anos. Como é suposto começarmos uma vida independente se nem uma casa conseguimos pagar? Que país é este onde já achamos normal arrendar um quarto por 400€?


Num país onde o salário mínimo bruto é 920€ é criminoso praticar as rendas que vemos nos sites de arrendamento. Como é que um jovem paga 400€ euros por um quarto, paga mais 250 a 350€ de despesas mensais variadas, paga um passe de transportes públicos ou abastece o carro, e chega ao final do mês? É suposto abdicarmos das nossas vidas porque temos que encher os bolsos de senhorios parasíticos que nos “dão” caixas de sapatos a que chamam quartos para viver? É suposto viver assim? Este futuro não é para nós e não podemos aceitar que nos condenem à precariedade absoluta.


É imperativo que nos organizemos das mais diversas formas para exigir ao governo que tome medidas eficazes para acabar com esta crise. Exigimos o controlo das rendas, mais parque de habitação pública, mais respeito por quem constrói este país todos os dias. Uma casa não pode ser vista como um ativo financeiro, mas sim como o direito que esta é e que está consagrado no artigo 65 da Constituição da República Portuguesa.