Trump ameaça a Venezuela com uma invasão do exército norte-americano. Têm-se sucedido bombardeamentos aéreos a navios pesqueiros e petroleiros, o pretexto invocado para os ataques – perseguir o narcotráfico – é risível. O combate ao crime de tráfico de drogas não se pode permitir desencadear assassinatos em massa em águas internacionais ou águas soberanas de outrem. Cedo se percebeu que esse pretexto serve apenas para mobilizar a opinião da extrema-direita afeta ao Tio Sam. Ao mesmo tempo, ao estilo do faroeste, oferece um prémio chorudo pela cabeça de Maduro. A exemplo de Putin que invadiu a Ucrânia por achar que está no seu quintal, Trump entende que todo o continente americano, do Alasca à Terra do Fogo, do Hawaí aos Açores, é o seu quintal.
Critico há muitos anos o chamado regime bolivariano da Venezuela. Chávez teve legitimidade eleitoral inatacável, mas Nicolás Maduro perdeu nas urnas e decidiu dissolver o Parlamento, recorrendo a uma série de truques e farsas eleitorais para se perpetuar no poder. Disso deram conta Lula, Petro e Boric, que não são propriamente paus mandados do imperialismo. Como Lula observou, se Maduro queria impulsionar a revolução bolivariana teria de ganhar uma maioria para sustentar o poder. Essa entorse à democracia enfraqueceu o país. As dificuldades da vida do povo, em contraste com a corrupção política e militar, têm cavado a insustentabilidade. O cerco comercial e financeiro provido pelos Estados Unidos não explica toda a miséria num país produtor de petróleo. O facto da oposição política ser de ultra-direita não legitima o abuso autoritário onde até o Partido Comunista foi proibido e, mais tarde, substituído por outro “PC” fiel a Maduro.
Afirmado o distanciamento do regime em vigor em Caracas, há que levantar a voz contra a previsível operação militar terrestre dos EUA em solo venezuelano, qualquer que seja a sua intensidade e o seu alvo. Não é aceitável a teoria das invasões para mudar o regime. Aliás, o que pediu Corina Machado, opositora de Maduro, foi exatamente isso. Não é preciso apoiar o governo venezuelano para exprimir a condenação de uma intervenção militar imperialista, sacrificando vidas e a soberania de outro país. Já assim aconteceu quando nos opusemos à guerra do Iraque e não tínhamos qualquer ponto de contacto com o ditador Saddam Hussein.
O entendimento internacional Trump/Putin enterra o Direito Internacional e recria os condomínios das potências, em cada uma das suas zonas de influência. Esse entendimento enfatiza a decadência das suas potenciais presas, uma linguagem comum a ambos. A luta pela paz é inseparável da luta pela democracia e pela autodeterminação nacional. Essas são as armas do pensamento contra os imperialismos, assim escrito no plural. A especial perigosidade dos Estados Unidos não branqueia a ameaça de outros. A submissão ao imperialismo é o caminho mais curto para o crepúsculo das democracias.

