Todos os anos há crianças que não recebem prendas de Natal. Não porque se portaram mal ou porque não se esforçaram, mas porque nasceram numa família sem dinheiro suficiente. Explicar isso a uma criança é um dos gestos mais duros que um adulto pode ter de fazer. Como se diz a um filho que o Pai Natal foi a casa dos colegas, mas não à sua? Como se responde quando ele pergunta, se fez alguma coisa errada?
É aí que o Natal deixa de ser apenas uma festa e passa a expor, sem filtros, as desigualdades inerentes ao sistema capitalista.
Não deixa de ser curioso que a figura central do Natal seja o Pai Natal, uma personagem construída em torno de uma lógica simples: quem se porta bem recebe prendas, quem não se porta bem fica sem nada. Parece inofensivo, quase educativo. O problema é que a realidade não funciona assim — e as crianças percebem isso mais depressa do que gostaríamos.
Há crianças que se esforçam, que ajudam em casa, que aprendem cedo a não pedir muito, que fazem tudo “como deve ser”. E mesmo assim não recebem nada. Não por falta de mérito, mas porque o dinheiro não chega. A história do Pai Natal falha exatamente no mesmo ponto em que falha a ideia de meritocracia: o esforço não compensa porque o ponto de partida nunca foi igual.
Talvez por isso este seja um dos exemplos mais claros de como insistimos em contar histórias bonitas para disfarçar injustiças muito concretas. Dizemos às crianças que o mundo recompensa quem se esforça e, quando isso não acontece, inventamos explicações mágicas para tornar a desigualdade mais suportável. O Pai Natal não é o problema em si — é apenas o reflexo de um sistema que ele acaba por denunciar, mesmo sem intenção.
Convém esclarecer: não se trata de defender consumismo nem de medir o amor de um pai ou de uma mãe pelo número de prendas debaixo da árvore. O problema é outro. A questão é que um ritual partilhado por quase todas as crianças se transforme, para algumas, numa experiência de exclusão e vergonha. O problema não são as prendas – apesar de parecerem parte do sintoma -; são os salários que não chegam ao fim do mês, as rendas incomportáveis, os trabalhos precários que deixam famílias inteiras sempre a contar os cêntimos.
Quando uma família não consegue oferecer uma prenda no Natal, importa dize que, na quase totalidade dos casos, a culpa não é dessa família. É o resultado de escolhas políticas, de salários baixos tornados norma, de um discurso persistente que responsabiliza quem tem menos por aquilo que lhe falta.
Costuma elogiar-se a “resiliência” das famílias pobres, a criatividade com que explicam às crianças porque é que o Pai Natal não apareceu. Mas isso não é virtude nenhuma; é uma adaptação forçada a uma violência que podia ser evitada. Nenhuma criança deveria ter de aprender tão cedo que a igualdade é uma promessa que não se cumpre na nossa sociedade — nem sequer no Natal.
Um Natal mais justo não se constrói com anúncios comoventes nem com gestos pontuais de caridade. Constrói-se com salários decentes, com horários que permitam estar em casa, com políticas públicas que garantam alguma estabilidade a quem trabalha. Constrói-se, sobretudo, com a recusa de aceitar que a alegria de uma criança dependa da sorte do berço em que nasceu.
Talvez um dia o Pai Natal deixe de ser o mensageiro involuntário destas contradições. Até lá, vale a pena prestar atenção ao silêncio das crianças que ficaram sem prendas por causa do senhor barbudo de cabelos brancos, vestido de vermelho (não confundir com Karl Marx).

