Uma economia para os mesmos de sempre








Na semana em que está marcada a primeira Greve Geral desde os tempos da troika, a revista The Economist presenteia-nos com uma notícia que nada diz sobre a vida de quem trabalha, mas tudo diz sobre a forma como está há décadas organizada a nossa economia.

A grande maioria dos trabalhadores em Portugal trabalha no setor terciário, resultado de um processo de anos de concentração urbana nos grandes centros, mas, sobretudo, devido a uma estrutura económica dependente do turismo.

Este subsetor, além de pouco produtivo, baseia-se em baixos salários e em contratos precários. Cerca de 40% dos trabalhadores do turismo auferem o salário mínimo. Ao mesmo tempo, este modelo de desenvolvimento económico cria precários e fabrica, com perversidade, cidades cada vez mais caras e inacessíveis para quem nelas trabalha.

O The Economist faz ainda referência à entrada de residentes estrangeiros com forte capacidade de investimento, o que, por outras palavras, significa que são pessoas abastadas que olham para Portugal como um vasto campo para a especulação, com efeitos que tornam a vida de quem cá vive e trabalha ainda mais custosa.

Congratula-se Luís Montenegro com este reconhecimento e cai num emaranhado de contradições.

Então, para o senhor primeiro-ministro, a economia que “cresce e se recomenda”, segundo os jornais internacionais, é a mesma que merece uma revisão da legislação laboral. Para Luís Montenegro, que também celebra os indicadores de pleno emprego, a atual legislação laboral é para mudar. Uma legislação que já permite tudo: permite dispensar um trabalhador dentro dos seis meses do período experimental; coloca Portugal como o segundo país da União Europeia com mais trabalhadores precários e de baixos salários; e sentenciava, segundo o Eurostat em 2024, 9% dos trabalhadores em Portugal à pobreza. Essa legislação, para Luís Montenegro, é demasiado asfixiante para os empresários. Logo ele, ex-gestor da Spinumviva, que sabe tão bem pelas dificuldades que passam os patrões.

É por isso deleite do governo de Montenegro, fiel servil do patronato, flexibilizar ainda mais a legislação laboral, facilitando despedimentos, atacando o direito à greve e precarizando, eternamente, a vida dos jovens, como se a precariedade e os baixos salários não fossem já uma sentença geracional mesmo com a atual legislação.

Neste país virado do avesso, a economia improdutiva tem nos trabalhadores a sua alavanca. Com efeito, diz um relatório da OCDE que, desde o início do século e excluídos os setores primário e imobiliário, em Portugal os salários reais evoluíram sempre a um nível inferior ao da produtividade. Posto isto, fraqueja a narrativa de que é preciso produzir mais para só depois se redistribuir. Perguntemo-nos: até quando?

Na semana em que está marcada a Greve Geral, instrumento maior de reivindicação e de luta dos trabalhadores, está anunciada a catástrofe: a Greve Geral pode custar 792 milhões de euros à economia. Pasme-se. Quer então dizer que, se os trabalhadores pararem, a economia não produz? Como podem estes dados contrariar a narrativa do liberal, que tem tanto de insidioso como de intrujão? Se os trabalhadores pararem, o país pára.

Neste país onde a maioria dos trabalhadores por conta de outrem tem um salário inferior a mil euros, onde uma Greve Geral tem implicações milionárias na economia e onde a produtividade aumenta sempre mais do que os rendimentos.  Este o país do avesso que desistiu da justiça social e de dignificar quem trabalha. Um país que desistiu da indústria, abdicou do setor transformador e produtivo e assumiu a total dependência da sua balança comercial aos interesses da UE e dos EUA. 

É uma economia submissa e à mercê dos mesmos de sempre, para os muito poucos que não produzem mas que acumulam. É a economia dos outros.