“Olha filho, era uma sardinha para cinco”








mulheres numa fábrica de sardinhas em Setúbal. 1931

“Olha filho, era uma sardinha para cinco. E, com sorte, um bocadinho de pão duro para enganar o estômago.” Assim me contava a minha bisavó, com a serenidade triste de quem sobreviveu à fome mas nunca se esqueceu do seu sabor.

Na aldeia onde a minha bisavó criou os filhos não havia quase nada, havia só a terra dura a estalar nos pés, as mãos feridas do trabalho e um medo teimoso que entrava pelas portas como vento frio. Medo da pobreza, medo da polícia, medo de dizer uma palavra a mais. Foi por isso que o meu avô começou a trabalhar numa idade em que hoje uma criança ainda anda a tropeçar nas contas de dividir, e mais tarde acabou por fazer as malas e partir. Não por aventura, mas porque a vida o apertava como um sapato pequeno. Fugiram de um país calado, onde se trabalhava de sol a sol e se comia pouco, onde quem ousava sonhar arriscava-se a desaparecer.

E é por isso que me dói ouvir, meio século depois, vozes a suspirar pelo passado. Hoje, quando ouço dizer “eram precisos três Salazares”, o que me vem à cabeça não é a ordem nem o combate à corrupção, mas sim o estômago vazio dos meus avós e o frio que se enfiava nas casas sem pão. A escola que o meu pai não pôde frequentar. O que havia antes de Abril não era glória – era miséria organizada. E é preciso dizê-lo sem medo. Porque há quem queira transformar a fome em nostalgia e a repressão em exemplo. 

Mas a memória não mente. Os números falam mais alto do que as saudades mal informadas: no tempo da ditadura, a esperança média de vida era de 68 anos – hoje é de 82. A mortalidade infantil caiu 93%. A escolaridade mais do que duplicou.Tudo aquilo que o regime dizia proteger, o país só conquistou depois de o derrubar. Há mais pão, mais livros, mais liberdade. Portugal é agora mais vivo, mais livre.

O problema não é a democracia. O problema é quem a usa como disfarce enquanto deixa crescer a desigualdade. É quem se alimenta da frustração de quem trabalha e continua pobre, cada vez mais pobre, e transforma essa dor em raiva contra a liberdade. É quem vende a nostalgia como se fosse justiça, quando o que quer é poder. 


Porque o tempo de Salazar não era um tempo de ordem: era um tempo de medo. E o que estas vozes bafientas querem ressuscitar agora não é a disciplina, é o silêncio.

O 25 de abril prometeu dignidade. Prometeu que o povo voltaria a ser dono da sua palavra. E é isso que ainda hoje assusta muitos: um povo que pensa, que lê, que contesta. Por isso, quando alguém fala em “Portugal precisar de três Salazares”, eu lembro-me da minha bisavó a dividir uma sardinha por 5 cabeças e o meu pai a deixar a escola para que mais ninguém passasse fome. 

A liberdade pode não encher o prato todos os dias, mas é ela que nos permite reclamar quando o prato está vazio. Sem ela, até o pão tem gosto a medo. E quem hoje pede o regresso do ditador não quer o país de pé. Quer o país de joelhos perante ele.