“Olha filho, era uma sardinha para cinco. E, com sorte, um bocadinho de pão duro para enganar o estômago.” Assim me contava a minha bisavó, com a serenidade triste de quem sobreviveu à fome mas nunca se esqueceu do seu sabor.
Na aldeia onde a minha bisavó criou os filhos não havia quase nada, havia só a terra dura a estalar nos pés, as mãos feridas do trabalho e um medo teimoso que entrava pelas portas como vento frio. Medo da pobreza, medo da polícia, medo de dizer uma palavra a mais. Foi por isso que o meu avô começou a trabalhar numa idade em que hoje uma criança ainda anda a tropeçar nas contas de dividir, e mais tarde acabou por fazer as malas e partir. Não por aventura, mas porque a vida o apertava como um sapato pequeno. Fugiram de um país calado, onde se trabalhava de sol a sol e se comia pouco, onde quem ousava sonhar arriscava-se a desaparecer.
E é por isso que me dói ouvir, meio século depois, vozes a suspirar pelo passado. Hoje, quando ouço dizer “eram precisos três Salazares”, o que me vem à cabeça não é a ordem nem o combate à corrupção, mas sim o estômago vazio dos meus avós e o frio que se enfiava nas casas sem pão. A escola que o meu pai não pôde frequentar. O que havia antes de Abril não era glória – era miséria organizada. E é preciso dizê-lo sem medo. Porque há quem queira transformar a fome em nostalgia e a repressão em exemplo.
Mas a memória não mente. Os números falam mais alto do que as saudades mal informadas: no tempo da ditadura, a esperança média de vida era de 68 anos – hoje é de 82. A mortalidade infantil caiu 93%. A escolaridade mais do que duplicou.Tudo aquilo que o regime dizia proteger, o país só conquistou depois de o derrubar. Há mais pão, mais livros, mais liberdade. Portugal é agora mais vivo, mais livre.
O problema não é a democracia. O problema é quem a usa como disfarce enquanto deixa crescer a desigualdade. É quem se alimenta da frustração de quem trabalha e continua pobre, cada vez mais pobre, e transforma essa dor em raiva contra a liberdade. É quem vende a nostalgia como se fosse justiça, quando o que quer é poder.
Porque o tempo de Salazar não era um tempo de ordem: era um tempo de medo. E o que estas vozes bafientas querem ressuscitar agora não é a disciplina, é o silêncio.
O 25 de abril prometeu dignidade. Prometeu que o povo voltaria a ser dono da sua palavra. E é isso que ainda hoje assusta muitos: um povo que pensa, que lê, que contesta. Por isso, quando alguém fala em “Portugal precisar de três Salazares”, eu lembro-me da minha bisavó a dividir uma sardinha por 5 cabeças e o meu pai a deixar a escola para que mais ninguém passasse fome.
A liberdade pode não encher o prato todos os dias, mas é ela que nos permite reclamar quando o prato está vazio. Sem ela, até o pão tem gosto a medo. E quem hoje pede o regresso do ditador não quer o país de pé. Quer o país de joelhos perante ele.

