Há momentos em que a história parece fechar-se sobre si mesma, e ainda assim, em cada fenda, a força que nos corre nas veias dá sinais de vitalidade. A esquerda, em Portugal, vive um desses momentos: exausta pelas demais e constantes batalhas, mas com espaço para se reinventar. Porque a força transformadora que nos pauta, aos anticapitalistas, não desapareceu — apenas mudou de forma, e aguarda quem a saiba reconhecer.
A crise atual não é o fim, mas o pretexto para um virar de página. Quando as estruturas perdem vigor, o que surge não é o vazio, mas a possibilidade. A política emancipatória precisa de reencontrar esse lugar fértil: o da invenção coletiva, o da construção paciente de poder popular, o da imaginação que não teme – e muito menos abandona – a utopia.
O capitalismo, em 2025, expande-se como uma névoa — difuso, generalista, invisível, infiltrando-se nos algoritmos, nas cidades, nas horas de sono. Mas também ele gera, inevitavelmente, as condições da sua própria contestação que colocam a nu as suas demais contradições do próprio. A cada estafeta que recusa a exploração, a cada jovem que só conhece contratos precários, a cada mulher que se impõe no trabalho e na rua, a cada comunidade que defende o seu bairro contra os tentáculos da especulação, há uma centelha de futuro. A história avança assim: por fricção e por resistência. E o tempo atual é de resistir para transformar.
A esquerda que virá terá de ser, inevitavelmente, aquela capaz de compreender que o conflito não se perdeu — apenas se transformou profundamente. Que as classes continuam a existir, ainda que o Capital as mascare com outros termos. E que o socialismo, longe de ser uma palavra antiga, é a única resposta plenamente atual à crise ecológica, à alienação tecnológica e às demais desigualdades globais.
A reconstrução e a resistência começam por baixo: nas lutas que reorganizam a solidariedade e o sentido de comunidade, nas redes de apoio mútuo que nascem quando o Estado falha. É aí que a política recupera o seu sentido: servir a vida contra a lógica do lucro. Nenhuma mudança do status-quo é iniciada por decreto — começa sempre na consciência e na prática de quem não aceita que o mundo permaneça como está.
Há quem veja neste tempo apenas, e de forma restrita, o declínio. Mas a história ensina-nos que cada colapso traz a semente de um novo começo. A fadiga da atual atuação política é também um convite à criação de outras formas de pensar e de atuar — mais horizontais, mais transformadoras, mais ousadas.
O desafio é imenso, mas também belo: reconstruir a esperança como força material. Pelo caminho fora falharemos, como falhamos em diversos momentos, porém, é certo que novos espaços irão emergir. Aliás, como sempre pautamos, os inevitáveis estão fora do léxico de qualquer comunista.
Falar ainda mais com quem trabalha, com quem cuida e cria laços, com quem estuda, com quem luta todos os dias para viver. Refazer o vínculo entre o ideal e o cotidiano. Fazer da política não o espaço do constante cansaço, mas da possibilidade. O que está diante de nós não é um túmulo, é um terreno em movimento. E nesse chão ainda fértil, há muito por semear.

