Fazer política para além da indignação








As Autárquicas serão um momento muito importante na vida política portuguesa. O afastamento de pessoas que podem dar contributos políticos sérios é uma das maiores ameaças atuais à democracia. É preciso que todos conheçam os problemas concretos da sua freguesia e concelho, da cultura aos transportes coletivos, da falta de investimento público à degradação dos serviços de saúde. Para isso, é preciso participar em listas de partidos ou de movimentos, dar o nome para listas e colaborar ativamente na elaboração de programas eleitorais. Só assim podemos fazer política para além da indignação.

A democracia enfrenta um problema grave, pois há uma estratégia de alcance global que ameaça as instituições – do Parlamento às Câmaras e Assembleias Municipais – para reforçar derivas autoritárias. Uma massa de descontentes culpa os especialistas, os imigrantes e a globalização pelos males do mundo. Os autarcas portugueses, como o presidente da Câmara de Loures, dão voz a essas narrativas porque sabem que se traduzem em votos. Para a extrema-direita, que centraliza o debate público num único tema, tudo se resume à luta contra a “elite corrupta”. Os líderes desses movimentos dizem o que for necessário para ganhar ao mesmo tempo que espezinham os pobres e a classe trabalhadora. Chegados ao poder, exercem-no com a autoridade necessária para evitar perdê-lo. Depois, subvertem as instituições democráticas. Já todos vimos este filme.

Como chegamos aqui e para onde queremos ir? Não tenho otimismo na regulação do discurso de ódio nas redes sociais, que é a plataforma ideal para esta massa de descontentes, e não consigo antever quais serão as consequências nas nossas relações interpessoais. Uma delas é certa: a violência contra quem pensa de maneira diferente.

Uma das explicações para o voto de protesto é o declínio da democracia participativa em lugar do institucionalismo. Cada vez menos participamos em associações de moradores para negociar as rendas das casas, em manifestações sobre habitação e em sindicatos. Quantas pessoas vemos numa Assembleia Municipal? Desresponsabilizamo-nos do que se passa à nossa volta. A participação na gestão pública, com vista ao bem comum, foi substituída pelo «político profissional» e, no futuro, poderá ser encarnada pelo líder demagogo alavancado pelos algoritmos que promete uma representação direta.

Uma fatia considerável dos portugueses atribui as culpas da desigualdade social e do desinvestimento público aos imigrantes que procuram Portugal para trabalhar e ter uma vida melhor e aos pobres que recebem pouco mais de 200 euros por mês. Quando confrontados com o valor do RSI, nem sabem responder. Não interessa, o que importa é o efeito de sentido. Em vez de falarmos da falta de investimento público no SNS, dizem-nos que os problemas no acesso aos cuidados de saúde se devem à imigração. Este discurso, que pode ser contrariado à distância de uma leitura rápida, esconde uma agenda de privatização dos setores estratégicos nacionais e de destruição do Estado Social.

Em vez de resolver problemas, o voto de protesto, muito dele resultante do facto de as pessoas se sentirem incompreendidas – o que legítimo – , fabrica os monstros do ódio, culpabilizando os mais frágeis. Perante isto, continuam as rendas absurdas, o caos nas urgências e a falta de professores. As Câmaras acumulam excedentes orçamentais de milhões enquanto tentam justificar a diminuição do investimento público e as sucessivas concessões a privados. Precisamos de um novo modelo de cidade. Usemos a nossa participação para projetar um futuro de liberdade. Começamos hoje, por uma vida digna.