Em 1972 é lançado o segundo álbum de José Mário Branco – Margem de Certa Maneira –, uma obra que traduz na sua sonoridade os tempos vividos em Portugal: a ânsia pela mudança, pela liberdade e companheirismo naqueles que, na sua condição de classe, nos são próximos. Porém, entre as músicas incluídas há uma que destaco: Aqui Dentro de Casa. Nesta, José Mário Branco assume o papel de “Marta” uma mulher que se encontra apaixonada por um militante de esquerda; num amor tão assoberbador que a faz, por momentos acreditar que este mero homem é capaz de apagar “a luz do dia ou a luta de classes”.
Ao longo da canção há uma estrofe que se repete essencialmente inalterada, ao contrário do seu significado e mensagem com o decorrer do tempo na vida de “Marta”:
Mariazinha fui
Em Marta me tornei
Vou daquilo que fui
Pr’àquilo que serei
Da primeira vez que ouvimos José Mário Branco a proferir estas palavras somos apresentados a este grande amor de “Marta”. Um homem assumidamente de esquerda a quem esta se rende de forma apaixonada e se atira de cabeça. Meus olhos verdes ceguinhos de todo para te servir. Evoca também a figura de Cristo neste primeiro vislumbre que temos dos sentimentos de Marta que acaba por fazer esta sua transição de criança, inocente – de “Mariazinha” – para a figura de mulher – “Marta” – despertada por este seu grande amor na vida por este camarada sem nome. Mais tarde, veremos que “Marta” foi sempre “Mariazinha” sob a alçada deste.
E aquilo que sabemos da relação de Marta com este militante vai sendo descrito, em primeira pessoa, por José Mário Branco. Sabemos que tiveram filhos e que ficou a encargo de “Marta” a manutenção do lar – Filhos e cadilhos / Panelas e fundilhos / Meteste as minhas mãos à obra –, o que a acaba por alienar de si mesma e da sua condição. Embora aparentemente fictícia, a vivência de “Marta” é tudo menos isso. A introdução das mulheres ao trabalho fora dos seus lares data de há uns bons anos – não irei especificar quantos pois bem sabemos o peso que a noção de classe tem nesta discussão (a verdade é que as mulheres pobres sempre trabalharam fora de casa) –, mas esta introdução ao mercado de trabalho em pouco diminuiu a sua carga horária no que concerne as tarefas do lar. Aliás, um estudo levado a cabo pela CGTP em 2021 aponta para o facto de que 78% das trabalhadoras fazem em média uma hora e treze minutos de trabalho doméstico, por sua vez, os homens que dedicam pelo menos uma hora ao trabalho doméstico são apenas 19%. Naturalmente “Marta” não teria grande tempo para ler Marx ou para participar em debates com os demais camaradas na clandestinidade enquanto tinha aos seus ouvidos crianças a chorar, braços pesados de roupa por lavar ou as mãos cheias de colheres para servir a sopa.
Porém, isto não inibiu “Marta” de perceber que algo aqui não estava certo.
Pegas-me na mão
E falas do patrão
Que te paga um salário de fome
Do teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho p’ra desabafar
Meus olhos parados
Mudos e cansados
Não podem ouvir o que dizes
E fico à espera que me socializes
Meus olhos verdes boneca privada do teu bem-estar
Surge um despertar de uma consciência de si mesma. De que esta autodenominação como comunista, como militante pela libertação dos trabalhadores do seu amado não o inibia de replicar os mesmos comportamentos que ele próprio jurava combater. Da mesma forma que o patrão não lhe pagava o suficiente para sobreviver, este marido sem nome também não permite a “Marta” viver de forma livre – às suas costas terá sempre a casa para limpar, os filhos para cuidar e o marido para receber. Talvez não falte pão em cima da mesa, mas certamente falta algo mais – a liberdade. A liberdade no seu sentido mais objetivo dado o contexto em que a música é escrita, isto é, a libertação do regime opressor do Estado Novo, mas também a liberdade da condição feminina – do patriarcado.
A tua vontade
Justiça e igualdade
Não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vasa
Mas eu já sinto a minha maré cheia a subir
Meus olhos cansados
Abrem-se espantados
P’rà vida de que me falavas
P’ra combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes que te vão falar e que tu vais ouvir
Nesta última parte, “Marta” inteira-se da sua condição como oprimida mas não o faz sem deixar de declarar guerra aos “donos de escravas”, àqueles que se servem do patriarcado e que o perpetuam para se manterem confortáveis, com um certo status quo que passa despercebido sob os radares escrutinadores de outros camaradas homens. Porque faz parte da “natureza da mulher” ser mãe, ser esposa, ser criada – mas nunca ser pessoa. E como é que podemos bradar aos céus que queremos a libertação dos subalternos se depois reproduzimos estes mesmos mecanismos de opressão que juramos derrubar?
Embora escrita há mais de meio século, Aqui Dentro de Casa continua a carregar consigo uma mensagem importantíssima para a esquerda do espectro político. Algo que, uma vez que estamos no mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, não podia deixar de ser relembrado. É na esquerda marxista que encontramos a luta contra o capitalismo e, consequentemente a luta contra as demais opressões que deste se alimentam, mas desengane-se quem acredita que isto se traduz numa “utopização” dos espaços de militância à esquerda. A ideia de “espaços seguros” é errónea, não é por estarmos rodeadas de pessoas de esquerda que não iremos assistir – ou ser alvos – de comportamentos que publicamente seríamos rápidos a condenar. Neste aspeto o machismo e a misoginia não são exceção.
E podemos – e devemos – discutir as grandes pensadoras feministas dos nossos e dos tempos passados, podemos colocar mulheres em lugares elegíveis e devemos lutar por desconstruir as mil e uma formas nas quais o patriarcado nos atinge, mas de pouco isto servirá enquanto não houver a morte do nosso machista interior – algo do qual somos todos cúmplices.
“Marta” percebeu em primeira mão que a sua libertação enquanto trabalhadora não se poderia fazer dissociada da sua libertação enquanto mulher. O patriarcado não nasceu com o capitalismo, antecede-o, e a destruição do capitalismo não poderá nunca ser dissociada do fim do patriarcado. Esta é uma crença que teremos de levar como facto para a nossa luta se almejamos construir um mundo livre, sem classes, sem opressão.
Por uma última vez, ouvimos a estrofe do início, mas há um novo sentimento a ela anexado. É a realização de quem a “Marta” foi este tempo todo – nunca foi “Marta” – foi sempre “Mariazinha”. Foi sempre refém da sua pequenez, ora uma pequenez real, isto é, de idade, ora uma fabricada pela dominação do seu marido sobre si e da situação de subalterna num mundo patriarcal. Mas, agora, plenamente consciente do seu potencial e da sua emancipação, pode-se afirmar “Marta”, aquilo que sempre foi, uma mulher de pleno direito, tão merecedora de libertação como os seus camaradas homens.
À data em que José Mário Branco escreveu a música foi alvo de inúmeras críticas à esquerda, a maior parte delas vindas precisamente de homens assumidamente de esquerda – claramente meteu o dedo na ferida.
Mariazinha fui
Em Marta me tornei
Sei aquilo que fui
E que jamais serei

