12 pontos para a cobardia








Boa noite e sejam muito bem-vindos a Viena.

Estamos em direto para mais uma noite histórica da Eurovisão. Um festival que nasceu em 1956, no rescaldo de uma guerra que a Europa jurou nunca esquecer, como símbolo de união, de paz e de valores partilhados. Um projeto que dizia: nunca mais. Que a música seria a prova de que éramos capazes de algo melhor.

As bancadas estão cheias, ouvem-se os gritos (os de entusiasmo), os fãs vieram de todo o lado com purpurinas no rosto e esperança no coração. Os apresentadores sorriem. Vamos começar.

Em palco esta noite, representando Israel, um estado com décadas de ocupação ilegal, de apartheid reconhecimento internacionalmente, de violência sistemática sobre o povo palestiniano. Um Estado que desde outubro de 2023 intensificou essa violência até ao inimaginável — mais de cinquenta mil mortos em Gaza, a maioria civis, muitas delas crianças, hospitais bombardeados, campos de refugiados destruídos, fome usada deliberadamente como arma de guerra. Que o Tribunal Internacional de Justiça está a investigar por genocídio. Israel sabe bem o que faz ao estar aqui e não se trata de ingenuidade mas sim de estratégia. Usar o festival como palco de normalização, desviar atenções, apresentar-se ao mundo com uma canção bonita enquanto Gaza arde. O entretenimento como cobertura diplomática.

Mas as luzes estão todas acesas e o público está de pé.

Que atuação, senhoras e senhores. Que atuação.

Agora uma pausa para recordar as regras do festival. A EBU (European Broadcasting Union) tem sido muito clara: a Eurovisão não é lugar para política. É um espaço apartidário, universal, aberto a todos. Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, fizemos uma exceção mas foi só uma vez, e havia razões muito específicas, que não vêm ao caso agora que temos confetis a cair do teto e um espetáculo para apresentar.

A secretária-geral da Amnistia Internacional alertou que tudo isto é um ato de cobardia, um duplo padrão flagrante, e uma traição aos valores que o festival diz defender. Disse ainda que não se pode permitir que canções e lantejoulas abafem as atrocidades de Israel ou o sofrimento palestiniano. Agradecemos a opinião e continuamos com o alinhamento.

Cinco países este ano optaram por não comparecer. Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia disseram que há palcos que não se podem partilhar enquanto um genocídio acontece em direto. Respeitamos a decisão, mais espaço para nós nas bancadas. Próxima atuação em três, dois, um.

Entra agora em palco Portugal. A história podia ter sido diferente. A maioria dos artistas que participaram no Festival da Canção disseram que, caso vencessem, recusariam ir a Viena. Os trabalhadores da RTP reuniram em plenário e apelaram ao boicote, dizendo que a cultura não serve para branquear crimes nem para desviar atenções de ações condenadas pela comunidade internacional. Salvador Sobral, o único português a vencer a Eurovisão, chamou à posição da RTP o que ela é: cobardia. Mais de 300 artistas portugueses assinaram o apelo internacional. Mas tudo isto não foi suficiente e Portugal foi a votos: 12 pontos para a cobardia. Afinal de contas, a Eurovisão é a Eurovisão.

As nuances são sempre mais fáceis de encontrar quando o agressor é aliado. Quando as vítimas têm o tom de pele errado, quando não guardam o passaporte certo. Quando o horror fica longe o suficiente para caber numa notícia entre o resultado da Champions e a previsão do tempo para a semana que vem. Mas não é altura para isso agora, temos uma tabela de pontuações para preencher e um genocídio para ignorar. 

E chegou o momento que todos esperavam. A contagem de pontos. Doze pontos para quem consegue olhar para o outro lado sem pestanejar. Dez pontos para o silêncio bem vestido. Oito pontos para quem transforma a cumplicidade em neutralidade e a neutralidade em virtude. Seis pontos para cada hospital bombardeado que não aparecerá na meia-final. Cinco pontos para cada criança cujo nome nunca foi lido em direto para a Europa.

A Europa está a votar. Os resultados chegam em breve. Enquanto isso, em Gaza, não há luz. Não há câmaras. Não há apresentadores com piadas ensaiadas. Há pessoas que tentam sobreviver a uma ofensiva que o mundo assiste em direto e decide, uma vez mais, que pode esperar até ao fim do festival.

A impunidade tem muitas formas. Esta noite tem purpurinas.