Etiqueta: Socialismo

  • Está na hora!

    Está na hora!

    Neste texto, começarei por aprofundar aquela que é, para mim, a maior luta do momento em Portugal para a classe trabalhadora: o salário. Não digo que não existam outros problemas igualmente importantes, mas este deveria ser o tópico de discussão mais urgente. Vou explicar porquê, numa perspetiva socialista.

    Chegamos a um momento em que a distribuição de riqueza é obrigatória. Isto passa pelo aumento dos salários pelos trabalhadores e pela redução dos dividendos para os acionistas das grandes empresas. As remunerações dos presidentes executivos das 15 maiores empresas cotadas na bolsa de Lisboa somaram 23,4 milhões em 2025. Em média, as remunerações dos CEO ficaram 53 vezes acima dos trabalhadores. No entanto, os salários médios dos trabalhadores continuam entre os mais baixos da Europa.

    A Europa, governada por uma elite deslumbrada, deixou que a pobreza, os preços da habitação e os salários baixos criassem uma maioria zangada. Em vez de andarmos na luta por migalhas a discutir qual é o pobre que mais defende milionários, paremos. Fábricas paradas. Escritórios parados. Hospitais fechados. Serviços parados. Universidades paradas. O que acham que acontece a seguir? A Sonae faz uma reunião para distribuir dividendos pelos acionistas? O Ventura e os seus financiadores promovem uma manifestação pelos direitos dos trabalhadores com um cravo verde ao peito? Certamente que não.

    Por cada dia que os “donos disto tudo” e as elites financiadas pelo capital sentirem o bolso a tremer, mais perto estão de ouvir quem reivindica. O problema nunca foi a produtividade, o lucro ou a escassez de capital. Foi sempre a distribuição da riqueza.

    Claro que, na iminência de tal situação, os debates nos painéis televisivos rapidamente se centrariam nas burcas ou nos direitos das pessoas trans. Dizem defender as famílias, mas ignoram que, em Portugal, o poder de compra das famílias é um dos mais baixos, sendo um dos países com maior aumento no preço da habitação desde 2020. Afinal, é tudo o que o quarteto da direita nos oferece, tendo em vista proteger os detentores do capital.

    Deveríamos antes responder à questão: como transformar a vida de uma população que, à escala europeia, é das mais pobres? Quem defende os seus interesses tem contra si alguns dos seus representantes na Assembleia da República. Dizia a deputada Andreia Neto, indignadíssima, aquando da greve geral de dezembro: “tudo isto é incompreensível! Uma greve geral porquê? Para reclamar o quê do governo?” Para um jovem que não consegue pagar a renda de casa e cuja vida profissional pode decorrer ao abrigo de sucessivos contratos a termo, estas palavras são um insulto. A AD ainda vai a tempo de descobrir a roda: todas as greves são políticas.

    Uma greve serve, numa democracia, para protestar. Fariam melhor os representantes do governo, cada vez mais sem resquícios de social-democracia, em explicar a ideologia deste pacote laboral. Na história, anda-se para trás com a inação de quem deveria reagir. Será sempre melhor que lutemos, lutemos muito, com dignidade. E que votemos em deputados que estejam do lado de quem trabalha, nas greves, para conhecerem os problemas dos portugueses. No dia 3 de junho teremos mais uma prova. Construamos uma democracia em que se trabalhe menos, trabalhemos todos, produzamos o necessário e redistribuamos tudo. Está na hora, por ti, por todos nós.

  • A Pegada de Outubro

    A Pegada de Outubro

    Passou mais um aniversário da Revolução de Outubro. Leva 108 anos de inspiração para os explorados e oprimidos pelo capitalismo. Qual é a atualidade desta memória em tempos de avanço do fascismo internacional e de regimes autoritários? Toda.

    Não só porque a revolução resultou de uma insurreição vitoriosa contra um regime autocrático e bárbaro mas, sobretudo, porque sempre educou as vanguardas dos trabalhadores na ideia de que é possível conquistar o poder popular, o poder dos trabalhadores e de outros setores populares prejudicados pelo capitalismo e pelas guerras imperialistas. É certo que essa Revolução foi destruída por dentro, pela falta de democracia, pela falta de modernidade social e tecnológica, entre outros fatores. Esses fatores internos deram cabo do socialismo e conseguiram aquilo que nem a guerra civil nem a invasão nazi tinham logrado. Mas a destruição da Revolução não lhe retira o pioneirismo e a contínua circunstância de ter marcado todo o século XX, grande parte dele como contraponto às potências imperialistas, ávidas em extinguir o mau exemplo que constituía a União Soviética para os estados capitalistas. O facto de a Revolução de Outubro estar ligada ao legado teórico de Lénine não só imortalizou a inteligência da estratégia do partido bolchevique como deixou ensinamentos universais para o movimento socialista. Ensinamentos que hoje podemos ter em conta, sem dogmatismos absurdos, como aliás formulava Lénine. Lénine contrariou o que chamava de “marxistas oficiais”, tal como hoje o diríamos dos “leninistas oficiais”. 

    Um desses ensinamentos apontava para fazer alianças sociais e políticas de modo a combater um inimigo poderoso mas sem que as bandeiras da vanguarda ficassem para trás. Hoje, a batalha pela democracia contra o ascenso do neofascismo pode conduzir a patamares de convergência muito díspares, com variados setores político-sociais, mas isso não invalida a perspetiva do socialismo. Diz-se que manter uma radicalidade plausível no momento atual anula convergências com o centrismo. mas isso é falso. O centrismo só converge por necessidade, não por qualquer simpatia, como, aliás, a “geringonça” se encarregou de demonstrar. A contraprova pode ser aferida pela depreciação que o PS faz ao Livre. Escrevi acima expressamente vanguardas sabendo que é uma palavra que gera pouca ternura. A existência de vanguardas, em todas as áreas, é um facto comprovado. É quase galileico dizer que as vanguardas se movem. Não quer dizer que um partido seja “a” vanguarda ou que de tal deva autoproclamar. Isso deu mau resultado, como é bem sabido.

    É essa distinção sobre o papel de vanguardas que permite ter ao mesmo tempo um programa, a perspetiva socialista, e uma plataforma de ação, a tática que pode declinar objetivos democráticos vários. Nenhuma outra revolução trouxe os caboucos do anticapitalismo como em Outubro. Não é comparável com repetições tardias do modelo soviético. E  muito menos é comparável com “revoluções culturais” ou agitações do tipo do Maio de 68. 

    As revoluções e as contrarrevoluções acontecem em precisos momentos da história, fruto de contradições objetivas do regime económico social, ou até de situações extremas de guerra. As vanguardas não escolhem revoluções. O que se pede às vanguardas é que as disputem a favor do socialismo quando tiver lugar essa iniciativa independente das massas. Foi o que falhou em Portugal no período anterior ao 25 de Novembro de 1975. Faltaram vanguardas civis, consequentes e unidas. Estive em 75 no secretariado das Comissões de Trabalhadores e Comissões de Moradores de Lisboa e fui testemunha do sectarismo que grassava no movimento popular, muito espontâneo e inorgânico, embora pujante, que se constituía na sombra do MFA/“esquerda militar”, Esse processo de vanguarda näo teve  suporte político-partidário significativo, não se podia contar com o PCP para isso, para que se tentasse o “assalto dos cèus”, na bela expressão de Marx sobre a Comuna de Paris.