Etiqueta: Imperialismo

  • My friend Xi

    My friend Xi

    A visita de Trump a Pequim foi precedida de um festival de elogios do presidente norteamericano a Xi Jinping. E a coisa continuou durante e depois dessa embaixada. Sobre a cimeira em si, ficaram umas promessas chinesas de compra de aviões à Boeing e soja ao agronegócio dos EUA. A conversa sobre as tarifas aduaneiras acabou com reduções generalizadas das taxas e negociações, ainda em curso, que ainda as reduzem mais. Tudo isto e algumas especulações sobre frases e alegorias do presidente chinês foram largamente difundidas.

    O ponto importante em análise parece ser o da natureza das relações entre as superpotências. Há dois anos, a generalidade da comunicação ocidental, de direita ou de esquerda, profetizava um clash nos asiáticos fabricado pela hegemonia norteamericana. Aparentemente, nada disso aconteceu. É preciso analisar mais a fundo esta questão central da política mundial e das globalizações.

    O invocado declínio dos EUA como potência dominante impulsiona políticas comerciais protecionistas, declara o óbito da OMC e destapa em larga escala a “guerra comercial”. Na retórica trumpista, os EUA iam recuperar o seu mercado interno, baixando as importações em volume e valor. Tudo isto acompanhado de forte expansionismo da militarização no planeta e no espaço. Que esta estratégia foi montada é iniludível, mas a parte económica soçobrou em Pequim. E veio o my friend Xi.

    Alguns analistas referem que os EUA tiveram de recuar na guerra comercial porque precisam de importar da China terras raras e minerais críticos sem os quais não conseguirá disputar a liderança tecnológica, já nas mãos da China. Esse facto conta, e muito, mas não é o único a ter em conta. Os Estados Unidos importam três vezes mais da China do que exportam. São cifras muito elevadas e esses fluxos correspondem a uma parte significativa do produto federal americano. É preciso não omitir o facto, também incidente, de operarem na China dezenas de multinacionais americanas, onde inúmeras marcas conhecidas faturam mais  à sombra do Partido Comunista Chinês do que no mercado americano. 

    A interpenetração das economias capitalistas é desde há várias décadas uma realidade que configurou interesses transnacionais do capital não inteiramente coincidentes com o capitalismo monopolista de Estado do início do século XX. Nesta fase, a fração da grande burguesia norte-americana que perfilhou o fascismo e o protecionismo, do qual Trump é o rosto, não terá perdido o propósito da guerra comercial, mas claramente perdeu esta batalha. A grande burguesia ligada ao comércio internacional e, sobretudo a oligarquia tecnológica, levou a melhor. As contradições entre potências imperialistas são uma constante do processo de acumulação dos seus superlucros. Contudo, o grau de antagonismo que pode ser a ignição para um confronto tem de ser avaliado juntamente com a capacidade de resistência dos povos e também pelo rácio de perdas cruzadas nos países capitalistas.
    Podemos entrever que a substituição do dólar como moeda padrão do sistema financeiro, reclamada oficiosamente pelos BRICS, parece ser uma agenda de muito maior tensão. Sobre esse assunto, ou sobre as alterações climáticas, imperou o silêncio. Outro ponto parece resultar claro, para além das tréguas comerciais: a aceitação mútua de espaços de interdição a terceiros. A China não se mete na guerra do Irão, embora tenha garantias sobre o seu petróleo.  A China quer os EUA a desvitalizar progressivamente Taiwan, mas também não se atreve a levar combustível a Cuba, como exemplo de paridade de atuação. Esta détente Trump/Xi não ajuda nada a América Latina a resistir aos ataques de Trump e associados, sobretudo para os governos que sempre esperam  um auxílio estratégico vindo de oriente.

  • Tirem as patas da Venezuela

    Tirem as patas da Venezuela

    Trump ameaça a Venezuela com uma invasão do exército norte-americano. Têm-se sucedido bombardeamentos aéreos a navios pesqueiros e petroleiros, o pretexto invocado para os ataques – perseguir o narcotráfico – é risível. O combate ao crime de tráfico de drogas não se pode permitir desencadear assassinatos em massa em águas internacionais ou águas soberanas de outrem. Cedo se percebeu que esse pretexto serve apenas para mobilizar a opinião  da extrema-direita afeta ao Tio Sam. Ao mesmo tempo, ao estilo do faroeste, oferece um prémio chorudo pela cabeça de Maduro. A exemplo de Putin que invadiu a Ucrânia por achar que está no seu quintal, Trump entende que todo o continente americano, do Alasca à Terra do Fogo, do Hawaí aos Açores, é o seu quintal.

    Critico há muitos anos o chamado regime bolivariano da Venezuela. Chávez teve legitimidade eleitoral inatacável, mas Nicolás Maduro perdeu nas urnas e decidiu dissolver o Parlamento, recorrendo a uma série de truques e farsas eleitorais para se perpetuar no poder. Disso deram conta Lula, Petro e Boric, que não são propriamente paus mandados do imperialismo. Como Lula observou, se Maduro queria impulsionar a revolução bolivariana teria de ganhar uma maioria para sustentar o poder. Essa entorse à democracia enfraqueceu o país. As dificuldades da vida do povo, em contraste com a corrupção política e militar, têm cavado a insustentabilidade. O cerco comercial e financeiro provido pelos Estados Unidos não explica toda a miséria num país produtor de petróleo. O facto da oposição política ser de ultra-direita não legitima o abuso autoritário onde até o Partido Comunista foi proibido e, mais tarde, substituído por outro “PC” fiel a Maduro.

    Afirmado o distanciamento do regime em vigor em Caracas, há que levantar a voz contra a previsível operação militar terrestre dos EUA em solo venezuelano, qualquer que seja a sua intensidade e o seu alvo. Não é aceitável a teoria das invasões para mudar o regime. Aliás, o que pediu Corina Machado, opositora de Maduro, foi exatamente isso. Não é preciso apoiar o governo venezuelano para exprimir a condenação de uma intervenção militar imperialista, sacrificando vidas e a soberania de outro país. Já assim aconteceu quando nos opusemos à guerra do Iraque e não tínhamos qualquer ponto de contacto com o ditador Saddam Hussein.

    O entendimento internacional Trump/Putin enterra o Direito Internacional e recria os condomínios das potências, em cada uma das suas zonas de influência. Esse entendimento enfatiza a decadência das suas potenciais presas, uma linguagem comum a ambos. A luta pela paz é inseparável da luta pela democracia e pela autodeterminação nacional. Essas são as armas do pensamento contra os imperialismos, assim escrito no plural. A especial perigosidade dos Estados Unidos não branqueia a ameaça de outros. A submissão ao imperialismo é o caminho mais curto para o crepúsculo das democracias.