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  • Delcy, vice de Maduro e de Trump

    Delcy, vice de Maduro e de Trump

    Os Estados Unidos, após operação militar ilegal, transformaram a Venezuela num protetorado. Qualquer que fosse o processo político em curso naquele país, terminou ali. A vice do sequestrado Maduro, num ápice, assume o poder sob o beneplácito do imperialismo americano, e toda a restante cúpula “bolivariana” a acompanha. Delcy e Marco Rubio estabelecem rapidamente um acordo de saque de grande parte do petróleo venezuelano em benefício das multinacionais americanas. A dimensão deste saque é tão grande que Trump se gabou de ter duplicado as reservas de petróleo dos EUA. Neste momento, vamos recebendo notícia de que o saque americano se vai estender a outros minérios, entre os quais, o ouro. Esta capitulação da liderança que rodeava Maduro não é produto apenas de um desfecho militar imposto externamente, mas de um golpe político interno. 

    Após o ataque militar de Trump, a lógica diria duas coisas: a “revolução bolivariana” resistiria com mobilizações populares e Trump entregaria o poder a Corina Machado e à extrema-direita da Venezuela. Nada disso aconteceu. Corina queixou-se de ser preterida. E logo pelo presidente americano a quem ela foi oferecer um lamentável prémio Nobel da Paz que lhe tinha sido atribuído. O negócio falou mais alto e Delcy era o segredo do negócio e fazia parte da estratégia trumpista. Delcy Rodríguez quer apresentar-se como réstia de poder ao mundo progressista, quando a precariedade do seu poder depende da entrada de capital americano, que ela elogiou como fator de progresso. A soberania foi expropriada e é Marco Rubio que informa como é.

    Esta capitulação e entreguismo não caiu do céu por obra e graça do Espírito Santo. Há muitos anos que a revolução chavista, ganha nas urnas, e desenvolvida com apoio do povo  ao governo democrático e anti-imperialista, tinha perdido a sua feição devido à corrupção generalizada da clique no poder e, sobretudo, do exército que estava ligado aos lucros do extrativismo. Ninguém pode ignorar o bloqueio americano,a exclusão da Venezuela dos circuitos financeiros, a hostilidade europeia, a constante campanha da extrema-direita na sociedade civil e as suas tentativas de golpe até à proclamação de um pseudo Presidente, Juan Gaidó.

    Contudo, é nos fatores internos da dita revolução que há que buscar a explicação para, num dia,o poder gritar pela pátria, liberdade ou morte, e, no dia seguinte, ficar de joelhos a pedir esmola. O grau de confiança de Maduro no exército era tal que dispunha de uma guarda cubana, como se veio a saber pela lista de baixas da operação de sequestro em Caracas. Como é possível que a empresa de petróleo tenha averbado prejuízos? Como era possível o crescendo dos sacrifícios populares nos últimos anos? 

    Tudo começou a descambar em 2017, quando o governo de Maduro perdeu as eleições para o parlamento e, de imediato, esvaziou o parlamento de competências, organizando, em paralelo, uma assembleia constituinte através de uma farsa eleitoral. Essa dita Constituinte usurpou as funções do parlamento e dispensou o presidente Maduro de negociar com as oposições. A presidente desta Constituinte foi, oh surpresa, Delcy Rodríguez. As últimas eleições presidenciais de 24 foram claramente fraudulentas, como, aliás, Lula da Silva abertamente questionou.

    Recentemente, no Congresso do PT do Brasil, numa sessão à margem, um representante do PSUV afirmava pateticamente que todos os objetivos da revolução bolivariana se mantinham no horizonte. Espera-se que a Esquerda mundial não amnistie o delcysmo, tal como fez vista grossa ao regime madurista que aniquilou tudo o que o chavismo tinha de libertador.

     A Esquerda socialista tem de respeitar a fonte de legitimidade do poder. Se o poder popular é obtido por via revolucionária através de levantamento popular, há que respeitar os orgãos e mecanismos de participação, instituídos pela revolução. Não era o caso  da revolução bolivariana, cujo poder foi constituído por via eleitoral e, como tal, há que respeitar o processo eleitoral democrático. 

    Ninguém à esquerda pode exigir eleições limpas em regimes democrático-burgueses e achar que podemos sancionar eleições sujas no poder popular, porque são dos “nossos” Ironia das ironias, aqueles que a meia voz disseram que as últimas eleições presidenciais foram manhosas mas tudo valia a pena para o petróleo tão necessário à Venezuela e a Cuba não fosse tomado pela Casa Branca, parece-me que devem fazer uma reflexão de princípio. O caso de Delcy é de bradar aos céus porque era internacionalmente conhecido que vivia numa elite de capital interno, bem retratada nas revistas da especialidade.

    As revoluções não sobrevivem comprando militares e políticos. Um dia, alguém paga mais. É necessária uma discussão séria sobre o papel das forças militares, sobre a sua depuração de elementos reacionários, do efetivo controlo popular das armas mas socialismo de “tropa” mostrou mais uma vez ser atalho para o desastre. 

    A nossa esperança está na reorganização popular, com organizações progressistas que foram banidas por Maduro, incluindo o partido comunista, para retomar a luta contra a colonização americana e trazer o pão que falta depois de mais uma tragédia do oportunismo.

  • My friend Xi

    My friend Xi

    A visita de Trump a Pequim foi precedida de um festival de elogios do presidente norteamericano a Xi Jinping. E a coisa continuou durante e depois dessa embaixada. Sobre a cimeira em si, ficaram umas promessas chinesas de compra de aviões à Boeing e soja ao agronegócio dos EUA. A conversa sobre as tarifas aduaneiras acabou com reduções generalizadas das taxas e negociações, ainda em curso, que ainda as reduzem mais. Tudo isto e algumas especulações sobre frases e alegorias do presidente chinês foram largamente difundidas.

    O ponto importante em análise parece ser o da natureza das relações entre as superpotências. Há dois anos, a generalidade da comunicação ocidental, de direita ou de esquerda, profetizava um clash nos asiáticos fabricado pela hegemonia norteamericana. Aparentemente, nada disso aconteceu. É preciso analisar mais a fundo esta questão central da política mundial e das globalizações.

    O invocado declínio dos EUA como potência dominante impulsiona políticas comerciais protecionistas, declara o óbito da OMC e destapa em larga escala a “guerra comercial”. Na retórica trumpista, os EUA iam recuperar o seu mercado interno, baixando as importações em volume e valor. Tudo isto acompanhado de forte expansionismo da militarização no planeta e no espaço. Que esta estratégia foi montada é iniludível, mas a parte económica soçobrou em Pequim. E veio o my friend Xi.

    Alguns analistas referem que os EUA tiveram de recuar na guerra comercial porque precisam de importar da China terras raras e minerais críticos sem os quais não conseguirá disputar a liderança tecnológica, já nas mãos da China. Esse facto conta, e muito, mas não é o único a ter em conta. Os Estados Unidos importam três vezes mais da China do que exportam. São cifras muito elevadas e esses fluxos correspondem a uma parte significativa do produto federal americano. É preciso não omitir o facto, também incidente, de operarem na China dezenas de multinacionais americanas, onde inúmeras marcas conhecidas faturam mais  à sombra do Partido Comunista Chinês do que no mercado americano. 

    A interpenetração das economias capitalistas é desde há várias décadas uma realidade que configurou interesses transnacionais do capital não inteiramente coincidentes com o capitalismo monopolista de Estado do início do século XX. Nesta fase, a fração da grande burguesia norte-americana que perfilhou o fascismo e o protecionismo, do qual Trump é o rosto, não terá perdido o propósito da guerra comercial, mas claramente perdeu esta batalha. A grande burguesia ligada ao comércio internacional e, sobretudo a oligarquia tecnológica, levou a melhor. As contradições entre potências imperialistas são uma constante do processo de acumulação dos seus superlucros. Contudo, o grau de antagonismo que pode ser a ignição para um confronto tem de ser avaliado juntamente com a capacidade de resistência dos povos e também pelo rácio de perdas cruzadas nos países capitalistas.
    Podemos entrever que a substituição do dólar como moeda padrão do sistema financeiro, reclamada oficiosamente pelos BRICS, parece ser uma agenda de muito maior tensão. Sobre esse assunto, ou sobre as alterações climáticas, imperou o silêncio. Outro ponto parece resultar claro, para além das tréguas comerciais: a aceitação mútua de espaços de interdição a terceiros. A China não se mete na guerra do Irão, embora tenha garantias sobre o seu petróleo.  A China quer os EUA a desvitalizar progressivamente Taiwan, mas também não se atreve a levar combustível a Cuba, como exemplo de paridade de atuação. Esta détente Trump/Xi não ajuda nada a América Latina a resistir aos ataques de Trump e associados, sobretudo para os governos que sempre esperam  um auxílio estratégico vindo de oriente.