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  • O Ministro da Educação não vai a recurso

    O Ministro da Educação não vai a recurso

    Todo o processo de avaliação externa violou grosseiramente o princípio da igualdade tendo em conta que os prazos para se pedir reapreciação e/ou se inscrever para a segunda fase são diferentes entre alunos que prestaram a mesma prova. Ou seja, a chico-espertice inventada pelo ministro para salvar a sua própria pele – a afixação parcial de pautas no dia 17 de julho – configura uma violação do princípio da boa administração e do princípio da proteção da confiança. A homologação de pautas com exames suspensos não está prevista em nenhum diploma. O processo poderá, pois, vir a ser impugnado. Os juristas que se pronunciem.

    O Ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI), que já se devia te demitido na semana passada (esperemos que o faça em breve), disparou também ameaças com base num erro elementar. Os diretores das escolas não são nomeados: são eleitos pelo Conselho Geral, nos termos da lei. Como é possível que o MECI não conheça o modelo de gestão das escolas, quando este assunto é parte integrante do currículo da formação inicial docente? Em vez de respeitar a autonomia das escolas, recorre a mecanismos de intimidação, lançando um aviso quase disciplinar, como se os diretores fossem subordinados políticos. Em suma, mais um desprezo pelo Estado de Direito que, por si só, deveria motivar a sua demissão.

    Pergunto-me, também, como é que o liberal Fernando Alexandre lidaria com um gestor de uma empresa privada responsável por uma trapalhada desta dimensão. A flexibilidade dos pacotes laborais liberais parece ter exceções e é sempre mais fácil responsabilizar os outros, como o MECI fez aos professores, aos agrafos, aos diretores e, há bem pouco tempo, ao Júri Nacional de Exames. E quem lucra com isto? Há uma promiscuidade clara entre o governo e as empresas privadas, como irá averiguar a Comissão de Inquérito na Assembleia da República.

    Um dos propósitos da avaliação sumativa é recolher informação no sentido de formular um juízo acerca do que os alunos aprenderam, atribuindo-lhes uma classificação. A avaliação sumativa produz informação sistematizada, que é registada e tornada pública, acerca do que se considerou ter sido aprendido pelos alunos. Esse é o fim mais nobre da avaliação externa. Sem isso, e nos moldes em que foi implementada neste ano, o que sobra é muito pouco e de pedagógico não tem nada. Isentar o pagamento das reapreciações é o mínimo da decência quando se instalou a desconfiança total nas famílias. Já sabemos a nota deste Ministro em matéria de governação. E não se deve dar oportunidade de ir a recurso.

  • Estado da Educação

    Estado da Educação

    Nas últimas semanas, ouvimos falar muito sobre a revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, o documento curricular de referência para a disciplina, em particular, sobre a obra de Saramago se poder vir a tornar leitura opcional. É uma das questões, mas não é o problema central. Devemos analisar a componente ideológica desta opção, aliás, o currículo é fruto de circunstâncias políticas, sociais e culturais. O viés ideológico que perpassa o currículo não é recente nem se restringe às obras de leitura integral e muito menos à dicotomia José Saramago vs. Mário de Carvalho. Não há almoços grátis na luta político-ideológica. 

    Mais grave é constatar que as práticas de ensino se centram, cada vez mais, em medir, comparar e hierarquizar e, agora, nos “descritores de desempenho de nível proficiente e avançado”, quando grande parte das aprendizagens dos alunos portugueses se situa nos níveis intermédios. As ações neoliberais do governo são, pois, muito claras. Como fazemos para que os alunos leiam mais e por prazer? Funde-se o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares numa macroestrutura, descontinuam-se programas de promoção da leitura comunitária, reproduzem-se desigualdades sociais. Como resolvemos a falta de professores? Contratam-se bolseiros de doutoramento (precários em situação de exclusividade) para dar aulas a alunos dos ensinos básico e secundário (mas não estavam em exclusividade?). 

    E para que os nossos alunos reflitam sobre a língua? Apaga-se gradualmente o ensino da gramática, por pressão da avaliação externa, tornando-o cada vez mais mecanizado, improdutivo, estéril, o que autoriza a narrativa daqueles que pregam o ensino utilitário à velha moda do Deus, Pátria e Família. Depois, saberes básicos como distinguir factos de opiniões, o verdadeiro do falso, o argumento do contra-argumento passam a ser considerados elitistas. Deixam de ser surpreendentes os discursos de ódio que grassam na Assembleia da República.

    A escola de hoje não serve mais para reproduzir conhecimentos, mas para ensinar a pensar, a ler, a confrontar. É o tal pensamento crítico que o Ministro da Educação, Ciência e Inovação (MECI) invoca quando não está ocupado a pensar na literacia financeira, a nova palavra-chave do léxico neoliberal. Não se preocupem: no 4.º ano, a criançada adquirirá conhecimentos de poupança. Coloque-se desde cedo o fardo sobre os cidadãos, ao invés de regular a finança, e vai ficar tudo bem. E, para justificar o embaratecimento das carreiras docentes, diz o MECI: o número de funcionários da Escola Pública é cinco vezes o do Pingo Doce. Hoje, não há muitas diferenças entre a escola e a mercearia, andamos a discutir trocos.

    Devemos discutir as prioridades do currículo, cuja construção envolve todos os professores. Falta refletir sobre as condições de carreira e sobre o facto de a escola como preparação para exames ser um desastre pedagógico. O MECI adotou um caminho para resolver todos os problemas: habilitações abaixadas, mais computadores e tutores de IA para todos. Não fiquemos reféns do MECI e do seu “think tank”que os milionários gostam de financiar com muitos milhares de euros. Afinal, não há almoços grátis nesta luta que se prevê longa.