Gaiola Dourada








Emanu. (2016). The Race [Cartoon político]. Recuperado de https://emanu.se/

Corak (2011), OECD, CEA estimates (12 de janeiro de 2012)

A mobilidade social está “avariada” (expressão utilizada pela OECD (2018) no seu relatório “A Broken Social Elevator?”). O estudo demonstra que a ascensão social encontra-se comprometida: em média, cerca de 40% das vantagens ou desvantagens de rendimento transmitem-se de pais para filhos, resultando numa mobilidade extremamente lenta. Para se ter uma ideia da dimensão deste bloqueio, um indivíduo nascido numa família de baixos rendimentos pode precisar, em média, de 4 a 5 gerações apenas para alcançar o rendimento médio da sociedade. 

E se uma curva conseguisse influenciar a forma como olhamos para o trajeto da nossa vida, e como perspectivamos o nosso futuro?

Ela existe, e é bastante analisada por economistas como um modelo explicativo fundamental na sociologia da estratificação social, que se dedica a tentar compreender em que medida a origem socioeconómica de um indivíduo condiciona o seu destino na estrutura social.

Aqui, o mérito ou privilégio entram em jogo com o elevador social.

Esta curva, que visualmente não o é, mostra-nos que, quanto maior é a desigualdade num determinado país, menor é a mobilidade social entre gerações. Por outras palavras, em sociedades muito desiguais, o destino financeiro dos filhos fica praticamente ditado pelo nível de riqueza ou pobreza dos seus pais.

Entramos, pois, no jogo do sistema viciado, o jogo da batota e da desigualdade, em que aqueles que são descendentes de famílias mais pobres, tendem a manter esse estatuto que posteriormente irá influenciar o acesso a determinadas oportunidades, enquanto que aqueles que advêm de famílias mais ricas são os líderes do jogo porque nada os irá abalar, pois estão protegidos pelo seu escudo de dinheiro, que detém tanto valor simbólico, que acaba por definir o destino das gerações vindouras nas várias vertentes da sociedade.

Apesar de uns vergarem a mola todos os dias em busca de uma vida melhor, recebendo salários que não são compatíveis com um estilo de vida mínimo de sobrevivência; aqueles que nasceram num berço de ouro tendem a não precisar de o fazer com tanta frequência e ânsia, através do privilégio.

Encontramos, neste jogo, o conceito do American Dream, que nos diz que qualquer pessoa pode alcançar o sucesso apenas com o seu esforço e talento,com a promessa de mobilidade social, independentemente do seu contexto social e familiar, o que demonstra ser mais uma ficção do que propriamente a realidade. Mas a mobilidade social é limitada e as diferenças de classe continuam a existir. Esta é aquela típica regra que nos ocultam quando nos explicam um jogo de cartas, e apenas nos revelam depois, pois é o trunfo que eles guardam na manga, como vantagem.

No título do manual de instruções desta  grande curva, surge a obra mais famosa de Fitzgerald, The Great Gatsby de 1925, que reflete a sua visão crítica e experiência pessoal no seio da sociedade americana, nomeadamente entre as elites.

Esta obra demonstra-nos a realidade dos “Roaring Twenties”, marcados por festas luxuosas, ostentação de riqueza e a sobre-valorização da aparência. Era uma sociedade onde parecer rico era quase tão importante como ser rico.

Fitzgerald, na sua obra, questiona o ideal da ascensão social, pois Gatsby (personagem principal) enriquece, mas nunca é totalmente aceite pela elite, visto que ele era descendente de uma família de classe baixa-média.

E é exatamente por isso que a obra se encaixa tão bem na Curva do Grande Gatsby pois mostra que, mesmo num contexto de crescimento económico, as oportunidades não são iguais para todos.

O autor e apropriador/modificador deste nome (“The Great Gatsby”) para o seu estudo é Alan Krueger, em janeiro de 2012, o então Presidente do Conselho de Assessores Económicos da Casa Branca durante a administração de Barack Obama. Krueger apresentou o gráfico no Center for American Progress, alertando para o facto de a crescente desigualdade nos EUA estar a sufocar as oportunidades da geração seguinte.

No entanto, a base científica por trás do gráfico pertence ao economista canadiano Miles Corak, um dos maiores peritos mundiais em mobilidade social intergeracional.

Se fizermos um ranking de países do “menos igual” para o “mais igual”, usando indicadores como o coeficiente de Gini (que vai de 0 (igualdade perfeita) até 100 (desigualdade extrema)), percebemos um padrão de interesse: os países com valores mais altos de desigualdade tendem a ter menos mobilidade social. Isto significa que, nesses contextos, há uma forte persistência intergeracional das desigualdades, ou seja, a posição e capital social e económico dos pais tende a determinar a dos filhos. 

Ou seja, quanto maior é a desigualdade, menor é a capacidade de uma pessoa mudar de posição social e maior é a probabilidade de “o teu passado ser o teu destino”.

Por outro lado, países mais igualitários (com o coeficiente de Gini mais baixo) apresentam mais mobilidade social, e as pessoas têm mais oportunidades reais de melhorar a sua situação de vida.

E como é que interpretamos isto, visualmente?

Os países posicionados na parte inferior esquerda do gráfico apresentam, geralmente, níveis mais reduzidos de desigualdade económica e menor persistência intergeracional dos rendimentos, ou seja, são mais favoráveis à mobilidade económica.

Pelo contrário, os países posicionados na parte superior direita apresentam níveis mais elevados de desigualdade e maior persistência económica entre gerações.

Os países nórdicos, como a Dinamarca, a Noruega e a Finlândia, surgem associados a níveis relativamente elevados de mobilidade intergeracional. Em contraste, os Estados Unidos e o Reino Unido apresentam valores mais elevados de persistência dos rendimentos.

No entanto, este gráfico não representa uma trajetória individual nem demonstra que todos os indivíduos de determinado país seguem o mesmo percurso económico. Trata-se de uma associação estatística estabelecida através da comparação entre países.

Esta “curva” permite-nos analisar desigualdades entre países com o coeficiente de Gini; perceber o impacto da origem social nas oportunidades de vida das pessoas; orientar políticas públicas (nomeadamente no seio da educação, impostos e apoios sociais); analisar a transmissão de riqueza e capital entre gerações; comparar a mobilidade social entre diferentes sociedades; e questionar a meritocracia, conceito tão intrínseco no “grande” American Dream.

Por exemplo, em Portugal, o ensino superior expandiu-se muito ao longo dos anos; no entanto, na prática, os estudantes de famílias com mais recursos podem ter mais probabilidades de terem explicações privadas, mais apoio financeiro dos pais, e, portanto, uma maior estabilidade, enquanto que os estudantes de classes mais baixas podem só ingressar mais tarde no ensino superior, ou mesmo abandoná-lo por falta de condições económicas para sustentar os custos que vêm com o ensino superior. Como possível solução, para combater esta realidade, alguns têm de conciliar o estudo e o trabalho para poderem arcar com as enormes despesas. Esta realidade é mais notável devido ao agravamento do custo de vida e pela crise na habitação estudantil. 

Uma quantidade considerável de estudantes universitários em Portugal são obrigados a trabalhar a part-time para pagar propinas, alojamento (que além das más condições que alguns têm, também subiram o preço da sua mensalidade); e alimentação, uma proporção que é superior à média europeia. 

Com rendimentos familiares bastante comprimidos, e o preço dos quartos nas grandes cidades a atingir máximos históricos, os alunos de origem socioeconómica mais baixa enfrentam o esgotamento físico e mental gerado pela dupla jornada de estudo e trabalho, o que aumenta drasticamente as taxas de abandono escolar e reduz as classificações finais durante a avaliação, limitando, tendencialmente, o acesso a mestrados e ao mercado de trabalho qualificado.

A nível territorial, Portugal continua dividido em Litoral (Lisboa,Porto), que na teoria tem mais oportunidades; e o Interior, com  menos emprego qualificado e menos serviços, o que nos leva a pensar que a mobilidade social depende também do local de nascimento dos indivíduos.

A Curva do Grande Gatsby manifesta-se de forma clara na geografia portuguesa: enquanto que os grandes centros urbanos do Litoral concentram as sedes de empresas multinacionais, os centros de inovação, a oferta cultural e os empregos melhor remunerados; o Interior do país debate-se com o envelhecimento demográfico, e uma economia baseada em setores mais desvalorizados (agricultura por exemplo). 

Especialmente na sociedade portuguesa, a família tem um papel central no apoio financeiro, na habitação e nas redes de contactos. Um exemplo concreto disso são os estágios ou empregos que muitas vezes são obtidos por redes informais como conhecimentos no seio familiar, ou então a ajuda dos pais para dar entrada numa casa. 

Devido aos salários de entrada baixos e à rigidez do mercado imobiliário, a independência dos jovens ocorre cada vez mais tarde (com idades médias de saída de casa dos pais muito acima da média da União Europeia). 

Na minha perspetiva, esta Curva do Grande Gatsby ajuda-nos a perceber que a ideia de “se trabalhares muito consegues tudo, independentemente do teu contexto social e económico” é errada, e que este tipo de discursos que têm surgido nas redes sociais de pessoas que declaram ser bastante bem sucedidas aparentemente, e que divulgam um monte de cursos para “ganhar dinheiro fácil e rápido” ou então sites ou jogos de casinos e apostas; são muito perigosos. 

Este discurso tóxico da meritocracia absoluta, relevada pelas redes sociais, por criadores de conteúdos que ostentam um estilo de vida de luxo fabricado, e vendem a ilusão de que a riqueza depende apenas da “mentalidade” ou de truques rápidos de enriquecimento (como criptomoedas especulativas, cursos de fachada ou plataformas de apostas online). Estes esquemas, na prática, acabam por funcionar, por explorarem a vulnerabilidade económica dos jovens frustrados com a estagnação salarial e a falta de perspetivas de mobilidade social. Ao culpabilizarem o indivíduo pelo seu próprio fracasso financeiro (“quem é pobre é apenas porque “não se esforçou o suficiente””), desviam a atenção das falhas estruturais da economia que funcionam apenas para os ricos.

Para os governos e decisores políticos, a Curva do Grande Gatsby deve ser um aviso de que, sem intervenção, a desigualdade perpetua-se em ciclo vicioso, pois os recursos não são distribuídos de forma igual, gerando uma enorme frustração social.

Gatsby tentou mudar o seu passado e garantir um futuro mais abastado, mas não conseguiu desviar-se das regras de uma sociedade estratificada. A verdadeira justiça social não se mede pelo sucesso de alguns indivíduos excecionais que conseguem “escapar” da pobreza, mas sim pela capacidade de um país garantir que o berço onde se nasce não dita o teto que cada um pode alcançar.

PS1: O único teto que seria bom delimitado é o teto às rendas.

PS1:Pós-Scriptum.


Referências Webgráficas:

Miles Corak (2013). Income Inequality, Equality of Opportunity, and Intergenerational Mobility.

OECD (2018). A Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility.