Trabalhar não  é sobreviver








Portugal tem assistido a um aumento persistente do custo de vida, que não tem sido acompanhado por uma valorização proporcional do trabalho, dos salários e das pensões. Os elementos essenciais a uma vida digna, a habitação, a alimentação, a energia, a saúde e a educação tornaram-se, para uma parte crescente da população, fontes de incerteza e preocupação. Aquilo que deveria constituir uma base de segurança e estabilidade transforma-se, cada vez mais, numa luta diária para garantir o indispensável.

Hoje, ter um emprego não garante, por si só, a satisfação das necessidades e o acesso a direitos básicos. Esta realidade levanta uma questão cuja pertinência deveria colocá-la no centro do debate social e político, em vez de desviar a atenção para questões secundárias que afastam o debate dos problemas concretos da população: quando trabalhar deixa de ser suficiente para viver com dignidade, o problema não está em quem trabalha, mas nas condições em que o trabalho é organizado e valorizado.

Esta realidade não se traduz apenas na dificuldade de fazer chegar o salário ao fim do mês. Traduz-se na perda progressiva de autonomia, na impossibilidade de poupar e no adiamento de projetos pessoais e familiares. Para muitos trabalhadores e trabalhadoras, ter um emprego deixou de significar estabilidade e passou a significar, simplesmente, sobrevivência. A esta situação soma-se a degradação das respostas dos serviços públicos, nomeadamente na saúde e na educação, que agrava as desigualdades sociais e transfere para as famílias encargos que deveriam ser mitigados por uma resposta pública eficaz. Quem dispõe de menos recursos vê, assim, a sua margem de escolha cada vez mais reduzida, ficando condicionado não apenas nas suas necessidades imediatas, mas também nas possibilidades de construir o seu futuro.

A habitação é talvez a expressão mais evidente desta contradição. Quando uma parte significativa do salário é absorvida pela renda, a alimentação, a energia, os transportes e as restantes despesas tornam-se um exercício permanente de contenção. Reduz-se, assim, a experiência de quem trabalha ao exercício contínuo de trabalhar e resistir, em vez de trabalhar e usufruir. O tempo, a energia e os rendimentos que poderiam ser dedicados ao lazer, à cultura, à vida familiar ou à concretização de projetos pessoais ficam condicionados pela necessidade constante de garantir o essencial. Não se trata apenas de conseguir pagar as contas, mas de dispor das condições necessárias para viver com liberdade, autonomia e tranquilidade. Trabalhar passa, assim, a ser um exercício de sobrevivência.

Perante este cenário, não é aceitável exigir aos trabalhadores e às trabalhadoras que se adaptem indefinidamente a uma realidade cada vez mais difícil, nem aceitar a precariedade e a perda de poder de compra como consequências inevitáveis da economia. Impõe-se uma mudança de prioridades que coloque as condições de vida da população no centro da ação política, através da valorização dos salários e das pensões, do reforço dos serviços públicos, da garantia de habitação acessível e da defesa dos direitos laborais. Mais do que assegurar a sobrevivência de quem trabalha, importa criar as condições para que o trabalho permita viver com dignidade, conquistar autonomia e concretizar projetos de vida.

Numa sociedade verdadeiramente justa, o trabalho deve ser entendido como uma das várias dimensões da vida, e não como um fim em si mesmo. Deve constituir um meio de garantir autonomia, promover a igualdade e criar condições para que cada pessoa possa usufruir plenamente da vida. Porque trabalhar não pode significar apenas assegurar a sobrevivência, deve também significar ter a possibilidade de viver, escolher e construir um futuro com dignidade.