Cuidado com os portugueses que matam!








A nova temporada de Monstro, na Netflix, conta o caso de Lizzie Borden, a jovem de Fall River, no Massachusetts, acusada de matar o pai e a madrasta à machadada em 1892 e absolvida no ano seguinte. Os oito episódios estrearam a 17 de setembro, e a série segue o método da antologia de Ryan Murphy: parte de um crime real e preenche com ficção o que falta. 

Os açorianos chegaram a Fall River sobretudo depois do colapso da pesca da baleia, por volta de 1870, e encontraram uma cidade já povoada, também, por irlandeses e franco-canadianos. Quando Andrew e Abby Borden foram mortos, em 1892, a polícia começou por procurar um estrangeiro, e as primeiras suspeitas caíram sobre portugueses. Nesse mesmo dia, o jornal local, o Fall River Herald, noticiou que um português empregado numa das quintas de Borden o tinha procurado de manhã para cobrar salários em atraso. Ao princípio da tarde, outro português, Antonio Auriel, foi preso numa taberna e libertado logo que um empregado do comércio o reconheceu. A pista da quinta acabou por não dar em nada.  Ao longo da série, surgem várias referencias com comentários depreciativos, com adesão à realidade da época, em torno da comunidade portuguesa local. Algumas personagens insistem até ao fim na tese que os portugueses são assassinos.

Três décadas depois, um estudo de 1923 sobre a comunidade encontrava os açorianos de Fall River nos escalões mais baixos das fiações, com salários baixos e a viver nas zonas menos atraentes da cidade, e, segundo um artigo académico que analisa essa obra, o seu autor, Donald Taft, tratava-os como um grupo racialmente ambíguo. Ao longo da série, surgem várias referencias com comentários depreciativos, com adesão à realidade da época, em torno da comunidade portuguesa local. Algumas personagens insistem até ao fim na tese que os portugueses são assassinos.

Em França, a comunidade portuguesa é hoje apresentada como o exemplo do imigrante que se integrou, mas nem sempre foi assim. Nas décadas seguintes aos 60 eram os “petits Portugais”, alvo, escreve Manuel Antunes da Cunha num artigo de 2022, de racismo ou pelo menos de desprezo, de discriminação escolar e de humor cheio de preconceitos. Em dezembro de 2015, o local do clube português de Brie-Comte-Robert amanheceu com inscrições como “à morte os portugueses”, acompanhadas de suásticas. Hoje a imagem de comunidade exemplar serve outros fins: em 2024, dez cidadãos avisaram no L’Humanité que a União Nacional explora a “pseudo-integração à portuguesa” para legitimar o racismo contra os imigrantes pós-coloniais. Ettore Recchi, da Sciences Po, atribui o voto de muitos emigrantes portugueses na extrema-direita ao seu grau de assimilação, mas é uma leitura dele, não um dado assente.

Ninguém gosta de ser o suspeito de serviço, de ver a nacionalidade usada como explicação para o que corre mal, de ser tratado como o problema de uma terra que também ajudou a construir. Um título como “cuidado com os portugueses que matam” incomoda porque pega em alguns e atribui-os a todos.

Se o incómodo é sincero, convém olhar para dentro. Em Portugal, o discurso de ódio contra comunidades de outros países cresce sem precedentes. Enquanto isso, o número de estrangeiros empregados em empresas portuguesas triplicou entre 2014 e 2023, sobretudo em setores duros como a agricultura, a construção e a restauração. Vêm trabalhar onde falta gente, e são, muitas vezes, explorados de forma desumana.

Ninguém aqui está isento. O ódio a quem vem de fora não é só de uma ala radical que se possa apontar ao longe: aparece na piada de café, na generalização que sai sem pensar, no “mas isso são eles”. A maior parte de nós já a ouviu sem reagir. A história de Fall River serve para isto, porque devolve-nos uma cena que conhecemos, vista do lado de quem a sofreu. Fomos nós os que chegaram sem falar a língua, os que faziam o trabalho duro, os que eram chamados quando era preciso arranjar um culpado e foram perseguidos. 

O título deste texto funciona com qualquer nacionalidade no lugar da nossa, e por isso não devia ser aplicado a nenhuma.