Pego na fatura do supermercado de umas compras que levaram 10% do salário e analiso alguns itens: 5 € por uma dúzia de ovos, 4 € por dois pacotes de arroz, 5 € pelos iogurtes. Carne para estufar a 13 €/kg, peixe a 15 €/kg, couve-flor a 2,5 €/kg e maçã a 2,3 €/kg. O salário não estica para a alimentação básica, quanto mais para a renda absurda e para as outras faturas. Entretanto, Montenegro apresenta um orçamento vazio e defende que 2.300 euros de renda mensal (três vezes o salário mínimo) é uma renda que merece um benefício fiscal!
O Governo pretende, com o apoio do Chega, fragilizar ainda mais os inquilinos e facilitar os despejos em Portugal, com o aumento dos meses de renda adiantada e o fim de limites às cauções. Em nenhum estado-membro da União Europeia é exigido este assalto para entrar numa casa. Como não ficar indignado com uma maioria parlamentar de direita que esmurra as vidas de quem já está no chão? A Europa, também governada por uma elite deslumbrada, deixou que a pobreza, os preços da habitação e os salários baixos criassem uma maioria zangada. É tempo de nos organizarmos para pôr fim a este escândalo. Resistir, lugar e organizar contra o aumento do custo de vida e a fatura do supermercado.
A democracia tornou-se numa caricatura de si própria e entrega-nos a aflição e a obscenidade dos lucros. De um lado, a dificuldade em esticar o rendimento até ao fim do mês para pagar bens essenciais; do outro, a face dos milhões de euros de lucro dos grupos dominantes na grande distribuição da alimentação. A colaboração entre PS e PSD para aprovar este Orçamento de asfixia continua a abrir portas para o fascismo. Uma oposição alternativa não pode sustentar a estabilidade política de quem só promove a guerra contra o que é comum.
Chegamos, por isso, a um momento em que a distribuição de riqueza é obrigatória. Cada bomba que Trump lança no Médio Oriente faz subir a conta do supermercado. Luís Montenegro está de braços cruzados e só descruza os braços para aplaudir o que venha de Donald Trump. Trata-se de um projeto deliberado de subserviência a Washington e a Bruxelas para aumentar a despesa militar enquanto há doentes sem médico, jovens sem casa, crianças sem professor e famílias sem dinheiro para a fatura do supermercado. Estas são as lutas de hoje e de amanhã.
