“O que decide eleições é o custo de vida”








A frase não é minha. Também não é de exclusiva propriedade intelectual de António Araújo, que a proferiu na sua mais recente entrevista à Antena 1. O historiador, que já foi assessor de Cavaco Silva na década de ‘90 e, mais recentemente, de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência, está longe do espaço político que partilho com os meus camaradas. Tomei contacto com o seu trabalho académico sobre o processo de extinção da PIDE/DGS após o 25 de Abril. Já sobre o seu percurso político, sei as diferenças que nos separaram. 

É insuspeita esta minha decisão de citar António Araújo. Faço-o porque me parece indispensável encontrar um bom retrato, mesmo vindo de um interveniente à direita, que demonstre, em última instância, a análise de economia política que o outro espectro político tem desenvolvido. É mesmo sobre o salário e as desigualdades sociais que a dinâmica social determina as decisões do povo. Dito de outra forma, é a evocação da luta de classes através de outra nomenclatura.

Até ao final do ano, assistiremos a três momentos eleitorais importantes. Nos Estados Unidos da América, acontecem as midterms, para as quais as sondagens indicam como provável um resultado que permita aos republicanos ter uma maioria consolidada no Congresso. No Brasil, a segunda volta das eleições coloca o candidato da extrema-direita Flávio Bolsonaro contra o atual presidente de centro Lula da Silva, que não conseguiu conquistar mais votos do que o seu principal adversário na primeira volta. Em Espanha, a crise da habitação e a grande mobilização popular nas ruas levou Sanchéz a demitir-se e a marcar eleições antecipadas. 

Em cada uma dessas regiões do planeta, há um sentimento de que o aumento do custo de vida não tem encontrado respostas políticas fortes. Nos EUA, Trump vê a sua popularidade cair, contudo, a oposição democrata “clássica” não consegue descolar da sua imagem de atores do “status-quo”. A figura de Mamdani vem furar essa lógica, mas é a exceção à regra. No Brasil, a estratégia de Lula da Silva tem passado por uma defesa intransigente do Estado de Direito contra o “contrabando” a que o bolsonarismo está disposto a fazer com o Brasil junto da administração norte-americana, mas não vai além de uma política económica de centro. Parte da campanha do histórico líder do PT tem passado pela recuperação das suas principais medidas sociais dos anteriores mandatos. Em Espanha, Sánchez resiste aos ataques que a extrema-direita lhe tem feito, mas não aguenta o flagelo social que a especulação imobiliária tem criado.

Mesmo em Portugal, o Governo treme com a sua total inoperância perante o aumento brutal do preço dos combustíveis, onde as gasolineiras atuam com a maior das impunidades. Ao mesmo tempo que apresentam lucros record a cada trimestre, não têm pudor em fixar os seus valores como uns dos mais altos de toda a Europa, num país onde o salário mínimo não chega aos 1000€, a rede de transportes públicos é deficitária e o tecido económico é composto, maioritariamente, por pequenas empresas.

A dita “crise do sistema democrático” é, antes de tudo, uma crise do sistema capitalista. É aí que a extrema-direita cresce. Atacando os alicerces do Estado de Direito e alguns direitos sociais coletivos e individuais, constrói a sua narrativa contra os mais vulneráveis. O problema, mais do que a existência desse campo político-ideológico, é mesmo a incapacidade dos “representantes oficiosos” das democracias liberais (entenda-se o centrão) tocarem nos privilégios de quem ganha com a crise. As fortunas mundiais nunca foram tão astronómicas e os níveis de desigualdade aproximam-se de períodos da história da Humanidade onde a escravatura era regra e a cidadania era privilégio de poucos. Não há Democracia que resista a tamanha desigualdade social. Para a combater, é preciso tocar no mercado e isso parece demasiado longínquo para os principais representantes do status-quo.

As esquerdas anticapitalistas têm sido coladas a essa imagem do status-quo. Essa manobra, orquestrada pela extrema-direita praticamente desde o pós-crise de 2008, tem permitido um all-in no campo da contestação social. É maniqueista retirar desta premissa que, sendo assim, não há qualquer ponto de contacto com projetos como Lula da Silva, setores mais à esquerda dos democratas norte-americanos ou mesmo eleitorado mais organizado do PSOE (Espanha) ou do PS (Portugal) com quem seja possível e desejável construir pontes em defesa de matérias fundamentais de direitos sociais e do Estado de Direito. Mas tudo isso é curto para a necessidade urgente de uma resposta que não se fique pela defesa idealista da Liberdade e toque na ferida do sistema, na verdadeira ferida que é o sistema económico vigente. Qualquer política de alianças tem de conseguir cobrir estas duas vertentes, caso contrário o fascismo tem uma avenida de oportunidades para manipular pobres contra pobres.

A importância de um projeto de uma esquerda socialista e popular que não tenha desistido da luta de classes como guião para a sua tarefa histórica é mais crucial do que nunca.