Quando a justiça social é confundida com a punição da pobreza








A cidade do Entroncamento vive há muito tempo um clima de crescente desagregação social. Muitas famílias, sobretudo as mais vulneráveis, enfrentam diariamente o aumento do custo de vida, procurando sozinhas formas de superar dificuldades que parecem não ter resposta adequada por parte do executivo camarário.

Esta realidade tornou-se ainda mais evidente após as últimas eleições autárquicas, que conduziram ao poder uma força política cuja estratégia assentou num discurso marcadamente populista e polarizador. Enquanto o debate político se centra na propaganda ilusionista, persistem as dificuldades de quem luta para pagar a renda, garantir alimentação ou fazer face às despesas básicas. É precisamente nestes momentos que se espera que uma autarquia assuma um papel ativo na promoção de respostas sociais. Os acontecimentos recentes demonstram que essa lógica não se esgotou na campanha eleitoral.

No dia 23 de julho de 2026, o executivo municipal, em articulação com a PSP e com a E-Redes, realizou no Bairro Frederico Ulrich uma operação destinada a eliminar ligações clandestinas de eletricidade e água em 25 habitações municipais. Neste cenário, é importante questionar o que acontece às famílias depois de a operação terminar. Quando existem agregados familiares que recorrem a ligações clandestinas por incapacidade económica para suportar as despesas básicas, limitar a intervenção ao corte desses serviços resolve o problema ou apenas o torna mais grave. Será mais problemático o uso indevido de eletricidade e água ou a escolha, por parte de um executivo, de deixar famílias sem acesso a esses bens.

Uma política pública orientada para a justiça social procura compreender as circunstâncias que levaram à ocorrência destes casos e cria mecanismos para que o acesso a bens de primeira necessidade seja universal. A intervenção social deveria acompanhar qualquer ação desta natureza, identificando situações de vulnerabilidade, encaminhando as famílias para os serviços competentes e promovendo soluções que garantam o acesso a bens essenciais com dignidade.

Quando a resposta institucional se esgota na repressão, na punição e na humilhação de pessoas em situação de pobreza, o resultado de ações desta natureza é a divisão entre munícipes e a criação da falsa ideia de que situações como esta advém de uma escolha individual e não de falhas políticas. Os habitantes do bairro Frederico Ulrich devem poder ver a reposição do seu acesso a bens primários como forma de garantir a sua dignidade.