Quem Lucra com o Fogo?








Todos os anos, Portugal arde. Todos os anos, há um debate sobre prevenção, sobre os meios, e sobre culpas. E todos os anos, quando o fumo baixa, as coisas continuam exatamente onde estavam. 

A floresta portuguesa foi entregue à indústria da celulose. O eucalipto ocupa hoje 26% da floresta nacional, cresceu 59% entre 2005 e 2015, porque empresas como a Navigator precisavam de matéria-prima barata e o Estado foi deixando aliás foi mais do que deixar: subsidiou, até olhou para o outro lado enquanto o território era transformado numa plantação ao serviço de acionistas. O eucalipto arde, toda a gente o sabe. A indústria também sabe. E continua a plantar.

Isto tem um nome. Chama-se captura do Estado por interesses privados. Uma empresa lucra com uma floresta que é um risco permanente para as populações que vivem à volta. As aldeias arderam. As pessoas morreram. Pedrógão Grande aconteceu.  Monchique aconteceu. E a resposta do Estado foi continuar a assinar contratos.

Mas há uma segunda metade neste negócio.

Para combater o fogo que a indústria ajuda a criar, o Estado paga dezenas de milhões por ano a empresas privadas. O orçamento do dispositivo de combate a incêndios cresceu de 38 milhões em 2016 para 75 milhões nos últimos anos. Em 2025, a Polícia Judiciária fez buscas em nove empresas do setor. Constituiu arguidos sete administradores. A suspeita é de cartelc com concursos viciados, de informação privilegiada a chegar às empresas certas antes dos concursos fecharem. Uma dessas empresas ganhou 40 milhões de euros em contratos num único dia. E em março deste ano, com as investigações em curso, a Força Aérea voltou a adjudicar 21 milhões à mesma empresa.

Leiam isto outra vez. O Estado sabe que há um cartel suspeito a sugar dinheiro público no combate aos incêndios. E renova o contrato.

Há quem precise que o Estado continue a pagar. Quem tenha acesso suficiente para garantir que isso aconteça. E há populações do interior que continuam a ver as suas casas arder, as suas paisagens desaparecer, enquanto o dinheiro público vai para onde sempre foi.

A quem serve este modelo? Não serve as comunidades rurais, que ficam sem floresta e sem futuro. Não serve os bombeiros voluntários, que arriscam a vida com meios insuficientes. Não serve o erário público, que paga uma fatura que não devia existir nesta escala. Serve a Navigator. Serve os operadores de helicópteros que concertam preços. Serve quem capturou a política florestal e a política de proteção civil como mais um setor de extração de lucro.

A solução é proibir a expansão do eucalipto. É renacionalizar os meios de combate a incêndios, retirando do mercado um serviço público essencial. É responsabilizar quem fez da floresta portuguesa uma fábrica de catástrofes. E é ter a coragem de dizer em voz alta que este país arde todos os anos porque há quem lucre com isso, e porque esse alguém tem mais acesso ao poder do que as pessoas que perdem tudo.

Enquanto isso não mudar, o fogo volta. E o contrato renova-se.