No más!








No Chile, foi eleito para presidente José António Kast. Kast é filho de um militar nazi, exilado em Santiago após a derrota dos alemães na II Guerra Mundial. Populista, de extrema-direita, na linha de uma direita chilena, quase toda ela filha da herança pinochetista. Vários dos seus irmãos desempenharam funções políticas durante a ditadura de Pinochet. Nesta segunda volta que lhe garantiu a vitória, a candidata da esquerda Jeannette Jara11 não foi além dos 41,70%, perdendo em quase todas as regiões. Termina assim, ao fim, a experiência da presidência de Gabriel Boric, da Frente Amplio.

O início do novo milénio foi profundamente marcado pelos movimentos alterglobalização, pelo ascenso de novas esquerdas críticas das experiências socialistas do século XXI alinhadas com a URSS e por fortes contestações ao neoliberalismo vigente, onde a crise financeira de 2008 marcou um antes e um depois na história contemporânea. Na sociedade chilena, a representação dessas novas lutas esteve diretamente relacionada com o “estallido social, mais recentemente (2019-2020), mas ainda antes disso com as grandes mobilizações estudantis – que começaram por volta de 2006 – contra a carestia de vida, em defesa de direitos sociais como educação pública. O país parou e a direita tremeu. A eleição de Gabriel Boric (ano antes, líder estudantil numa das maiores universidades da capital, Santiago) durante a pandemia é o culminar de um processo de fortes mobilizações sociais. Chegava ao poder um jovem na faixa etária dos trinta, impulsionado por um partido recém criado na altura – Frente Amplio.

A Frente Amplio nasce da junção de um conjunto de organizações de esquerda, todas elas ligadas aos acontecimentos das lutas estudantis, críticas da viragem à direita do Partido Socialista e empenhadas em participar numa reinvenção da luta social fora da tradição mais oficial dos partidos comunistas. A experiência da Frente Amplio no Chile significou uma lufada de ar fresco num país que atravessou uma das ditaduras mais sanguinárias do século XX latino-americano. O período histórico da governação de Allende (1970-73) havia sido a última vez que as esquerdas haviam governado. O seu trágico final com o golpe a 11 de setembro de 1973 significou, desde logo, o fim do regime democrático, a perseguição e execução dos principais dirigentes políticos do Governo de Unidad Popular, o desaparecimento de forças políticas como o MIR (Movimento de Izquierda Revolucionária) depois da maioria dos seus dirigentes terem sido presos, torturados e mortos; a entrada na clandestinidade do PC e, na prática, a dissolução do PS, de onde era oriundo o próprio Allende. Os 17 anos de ditadura e as feridas da tortura generalizada e da constante violação descarada dos Direitos Humanos marcaram a sociedade chilena até aos dias de hoje. Sensivelmente trinta e cinco anos após o referendo nacional que decretou o fim da ditadura de Pinochet e o “processo de transição democrático”, continuam por encontrar mais dois mil corpos executados e escondidos pela ditadura de Pinochet.

O processo de “transição para a democracia” chileno está carregado de contradições. Verdadeiramente, não existiu qualquer rutura com o passado autoritário, os próprios resultados desse referendo espelham essa realidade: apenas 55% dos eleitores votou “contra a continuação da ditadura”: no más! As primeiras comissões para a verdade, que assumiram o difícil papel de reparar as vítimas e as duas famílias dos crimes da ditadura, tiveram sempre a oposição da direita chilena que atuou assumindo duas táticas: ora impondo personalidades do Exército nessas mesmas comissões (quase sempre com nomes ligados diretamente a Pinochet), promovendo um clima de medo e chantagem sobre os próprios trabalhos da comissão; ora sendo autoras e promotoras de um verdadeiro programa de rutura da memória.

A revolta que as novas gerações chilenas carregaram durante estas últimas duas décadas e levaram até às urnas em 2020 tem um significado nacional pesado. Elas são filhas e netas dos perseguidos, exilados e executados de Pinochet. A experiência neoliberal chilena foi objetivamente uma chacina. O casamento entre esse legado de luta e o combate contra a globalização capitalista encontra, no Chile, particularidades ímpares. É, talvez, a experiência histórica que melhor desmonta o argumento que hegemonicamente invade a sociedade contemporânea: a ideia de que o neoliberalismo e o regime democrático são uma e a mesma coisa. Não há confusões: o neoliberalismo no Chile, tal como noutros países latinoamericanos, foi imposto com a intervenção direta do aparelho dos Estados Unidos da América à lei da bala.

Se as esquerdas chilenas carregam o legado de Allende, toda a direita chilena, praticamente sem exceção, nunca foi outra coisa que não pinochetista. Daí, a importância central do “combate cultural” em torno das questões da memória. É quem, nos dias de hoje, dá voz e corpo à corrente ultraconservadora “anti woke”, apesar de todo o mandato de Gabriel Boric se ter centrado nas questões do aumento do salário, do problema no acesso à habitação e no avanço num conjunto de direitos sociais que o país esperava. Lá como aqui, poucas vezes importa a realidade, pois a imposição de uma agenda mediática em torno de monstros e mentiras sobre o passado reina.

A derrota da esquerda nestas eleições não foi uma surpresa. O processo de referendo para uma nova Constituição, lançado por Boric na presidência, foi derrotado nas urnas. Em causa, estava a tentativa de atirar para o caixote do lixo da história o texto constitucional de Pinochet. Se me é permitido, deixo apenas uma nota: até isso é motivo de espanto! O país gere-se por uma Constituição do regime anterior, o que prova que ele nunca caiu na totalidade, nem eles nem a teia de interesses da classe dominante a ele ligados.

Em jeito de conclusão, auxilio-me numa frase batida. Não basta ganhar o Governo, é preciso também ganhar o Estado. Os interesses privados que levaram Pinochet ao poder através de um golpe de Estado em 1973 são exatamente os mesmos que reinam hoje no Chile. Os grandes empresários que detêm os meios de comunicação, as principais transportadoras, os grandes meios de produção, voltaram a conseguir colocar à frente dos destinos do país alguém que não tem medo de se afirmar convictamente pinochetista.

O caminho é o do retrocesso social acentuado. Está em curso uma nova tomada do poder pela extrema-direita em todo o mundo. A América Latina volta a ser um dos palcos dessa ofensiva. Apesar de agora derrotados, continuamos a ter muito que aprender com a capacidade de mobilização social da esquerda chilena nos últimos anos. Termino esta recensão enviando um abraço fraterno a todos o povo chileno, a todos os militantes e dirigentes da esquerda chilena que sabem o que é ter o passado presente todos os dias e, ainda assim, não desistir do futuro.


  1.  O sistema partidário e eleitoral chileno permite que vários partidos se proponham a desencadear eleições primárias entre si. A candidata Jeannette Jarra foi a vencedora desse processo entre as forças de esquerda. É membro do Partido Comunista do Chile e conseguiu a maioria dos votos contra outros candidatos à esquerda, nomeadamente Gonzalo Winter, da Frente Amplio, partido do até agora Presidente Gabriel Boric. ↩︎