Alerta! Camaradas








Este ano celebraram-se os 50 anos do Festival da Canção de 1975, edição realizada no fervor do PREC, que ambicionava retratar o panorama musical emergido após a Revolução de Abril e colocar sob rasura o que se associava ao salazarismo. O certame, o maior veículo de comunicação com as massas, figurava como um espaço preponderante na disputa da cultura, bem como uma oportunidade ímpar para apresentar uma canção na Europa, que evidenciasse as transformações políticas e sociais ocorridas no país.

Nesta edição, houve um esforço por convidar compositores considerados progressistas, que refletissem a diversidade ideológica das várias tendências – mais radicais ou mais moderadas – associados ao campo político da esquerda. Os temas versaram sobre a Revolução, o fim do Estado Novo e da Guerra Colonial, mas também sobre as preocupações políticas e sociais que marcavam a época. O Grupo de Ação Cultural [GAC] leva Alerta!,que, por ser a canção mais panfletária, beneficiava de um apoio vigoroso da imprensa e dos críticos. Esta era, também, a canção mais programática, apresentando as linhas-mestras do programa da União Democrática Popular [UDP] e, de acordo com José Mário Branco, o posicionamento ideológico do GAC na «luta pela Democracia Popular e pela Ditadura do Proletariado».11 Por outro lado, Sérgio Godinho compõe A Boca do Lobo, cujo enfoque era a crítica política ao que ainda não estava totalmente liquidado do Estado Novo e à possível intervenção estrangeira dos que temiam um caminho socialista para o país, anunciando que esse processo coletivo já se encontrava em curso e iria ser concluído.

A RTP tinha optado por alterar o sistema de voto, deixando o mesmo a cargo dos letristas e compositores, que, através das declarações de voto – transformadas em comunicados políticos – disputaram não só o conteúdo poético e sonoro do que deve ser a música popular portuguesa, mas, acima de tudo, de que país construir. Estava em litigância a imagem do país que se pretendia transmitir para o povo e para a Europa e, para José Mário Branco e o GAC, a canção não poderia ser apenas de denúncia; tinha de impelir à ação e luta. Tal como as restantes canções, a canção de Sérgio Godinho recebeu a pontuação mínima da parte do GAC, que considerava que «todas elas [canções] saíram da mesma panela em que a burguesia cozinha os seus grandes lucros comerciais. Os festivais do tempo do fascismo davam-nos gato por lebre; agora dão-nos gato por lebre com cravos de liberdade». Na conferência de imprensa do GAC, justificam o voto, acrescentando que A Boca do Lobo seria «uma canção que, embora não sublinhe expressamente as posições dos partidos burgueses, reformistas e revisionistas – que traem o povo a cada hora –, também não as desmente; não as anula; não se coloca contra elas» (Balanço do XII Grande Prémio TV da Canção 1975, 1975, 21:19-23:15).

Num período em que os partidos tentavam afirmar-se em termos nacionais a pensar nas eleições que ocorreriam em 25 de abril, estas canções carregaram as divisões político-ideológicas e tiveram um papel ativo na definição do mapa político, cultural e social neste país em transformação. Cristalizou-se a imagem de uma edição singular, profundamente radical, mas, na verdade, o Festival da Canção de 1975 evidencia o confronto no campo político da esquerda entre aqueles que defendiam mudanças mais radicais e aqueles que queriam que a mudança fosse pautada por um tom de conciliação. No final da votação, A Boca do Lobo terminou em 2.º lugar com 59 pontos, face aos 61 pontos obtidos por Madrugada. Ganhou, provavelmente, a menos interventiva de todas as canções a concurso, que, ainda assim, enunciava a violência da Guerra Colonial e carregava, em si, um véu de esperança e emoções pós-Revolução. 

 Decorridos 50 anos, o contexto político alterou-se substancialmente: a esquerda está reduzida a mínimos históricos desde o 25 de Abril e os cravos de liberdade vão ficando cada vez mais ameaçados. A isto, a esquerda responde como há 50 anos: gladia-se entre si pela determinação de qual o partido que melhor aponta os caminhos da luta; qual recorre a uma orquestração pop; qual o mais burguês e reformista. Pelo caminho, deixou a Ditadura Proletária e a vontade de impelir à ação e à luta. Restou, apenas, uma resistência vazia ao fascismo e a denúncia frouxa dos vícios da democracia burguesa.

A diversidade ideológica da esquerda sempre existiu e recomenda-se que exista. Porém, nestas eleições presidenciais, o contexto histórico exigia que, ao invés de se acantonarem na disputa de quem é o vencedor dos 4% e o perdedor dos 2%, o BE, o Livre, o PCP e o PEV soubessem colocar os interesses do povo em primeiro lugar e apoiar um candidato presidencial de esquerda que conseguisse mobilizar e impelir à luta. Não com ambições meramente eleitorais, uma vez que o somatório de votos deste espaço político, atualmente, bastante reduzido, não seria sequer suficiente para chegar a uma segunda volta; pelo contrário, com o objetivo político de estabelecer as pontes necessárias para a criação de um espaço mais amplo e plural, capaz de projetar um horizonte de expetativa e criar a mobilização necessária para as lutas dos próximos tempos. Preferir, em nome da identidade própria e da luta pela sobrevivência e afirmação perante os restantes partidos de esquerda, lançar diferentes candidatos presidenciais que, nem disputam, nem criam espaço político, é um profundo desserviço que fazemos. No Festival da Canção de 1975, as divergências ideológicas no campo mais à esquerda deixaram A Boca do Lobo a dois pontos da vitória sobre Madrugada. Neste momento, estamos a muitos mais pontos do vencedor – e este está longe de ser Madrugada. 

A Boca do Lobo tem vindo a apertar; e apertará cada vez mais. Aos partidos de esquerda compete inverter a maré: saibamos privilegiar o povo, escolher as batalhas certas e lutar o verdadeiro lobo. Nunca nos esqueçamos, tal como Carlos Carvalheiro cantou: «A gente vai acabar / Com a boca do lobo / A morder na nuca do povo». 


  1. A utilização de Ditadura Proletária foi introduzida na canção para vincar as divergências entre a UDP e o PCP, que tinha retirado a expressão dos seus Estatutos, no VII Congresso (Extraordinário), em 20 de outubro de 1974. ↩︎