É Greve porque é grave!








As duas centrais sindicais convocaram uma Greve Geral para o próximo dia 11 de Dezembro. Em causa está a vontade do Governo em proceder a uma alteração estrutural na legislação laboral, penalizando ainda mais os trabalhadores e facilitando a vida a quem lucra com a exploração.

A última Greve Geral aconteceu há 13 anos, a 27 de junho de 2013, durante o Governo da “Troika”, que contava exatamente com os mesmos dois partidos que hoje nos governam: PSD e CDS. Não se compreende, então, o espanto do líder parlamentar da bancada do PSD Hugo Soares, que questiona a razão para só haver greves gerais quando a direita governa. Não é por acaso. A anterior a 2013, que aconteceu a 24 de novembro de 2011, já havia juntado centenas de milhares de pessoas contra o recém empossado governo Passos-Portas. Tive oportunidade, na altura, de escrever que “mais do que uma Greve movida por razões laborais para passar a ser uma Greve Política. Motivadora de uma frente social defensora de uma alternativa política à inevitabilidade, só poderá ser uma resposta se estudantes, precários, mulheres, desempregados, bolseiros de investigação, funcionários da função pública e do privado e todos que se vêm assaltados por este Governo”. 1

Na altura, enquanto estudante, participei em piquetes de greve que juntavam estudantes, professores e investigadores do Ensino Superior sob o lema “Quem não pára consente!”. A paralisação em dezenas de faculdades, escolas superiores e centros de investigação fez-se sentir. Aconteceu ali, naquele momento, uma coisa rara – a união de grupos distintos da mesma comunidade. Não estamos habituados a ver um estudante, um professor, um investigador e um funcionário da secretaria, todos e ao mesmo tempo, a lutarem pelos seus direitos e, mais do que isso, a defenderem o Ensino Público. Recuperar a memória dessas mobilizações dá-nos coragem para não desistirmos.

A derrota das várias esquerdas nos últimos atos eleitorais ainda não permite configurar uma greve geral com essa capacidade de propositura de uma política alternativa agregadora, como aconteceu durante os anos da troika. O momento é outro: o de reagir ao brutal ataque que pretende precarizar ainda mais os contratos a termo, facilitar despedimentos, dar uma machadada final na contratação coletiva. Mas uma coisa sabemos, é que são momentos como estes de Greve Geral que se promovem grandes ações de consciencialização junto de quem trabalha, do nosso colega de trabalho, do amigo que connosco se cruza em mais uma jornada de estafeta, de quem se senta ao nosso lado na aula ou no laboratório, de quem partilha o ecrã da mesma reunião à distância.

Foi assim em todas as greves. Dos piquetes aos dias que as antecedem, milhões de pessoas são confrontadas com a sua própria situação, com a contradição real entre os lucros da sua empresa e o seu salário estagnado, ou o contrato a terminar e os recursos humanos à procura de quem aceite condições piores para o seu posto de trabalho. É tempo de toda a mobilização, foi assim em todas as greves – e ganhamos sempre com isso. Se recuarmos a 1903 no Porto, percebemos o poder da mobilização dos trabalhadores. O que começou por ser um protesto numa fábrica de tecidos na Rua do Bonjardim, rapidamente se transformou numa das maiores greves de que há memória. Mais de um mês de paralisação, juntando trabalhadores dos mais diversos setores de atividade aos tecelões, que haviam iniciado esse combate por melhores salários e contra os despedimentos.

A Greve Geral do próximo dia 11 de Dezembro ainda não aconteceu e já deu frutos. Veio clarificar os termos do debate. Os que querem “acabar com o sistema”, dizem, já estão todos a mimetizar as palavras dos patrões. O Governo queixa-se que só há Greves Gerais quando a direita governa (porque será?!), o candidato da IL diz que a precariedade não é mais do que uma habituação ao progresso, o fascista compara a atual lei laboral portuguesa com a União Soviética. Ah, não esquecer Seguro (candidato apoiado oficialmente pelo PS), que entende a greve como prejudicial. Respondem todos aos mesmos interesses. 

É Greve porque é Grave! O que está em causa é mesmo grave. Está em marcha o maior ataque aos direitos dos trabalhadores no nosso país. O debate público está armadilhado com fictícias guerras culturais e uma exagerada atenção a quem faz da política um circo mediático. É o panorama ideal para quem como este Governo de Direita, entre os pingos da chuva, leva avante o seu projeto de transferir os parcos recursos do trabalho para empresários e multinacionais. É a história da luta de classes a acontecer à frente dos nossos olhos. Por isso é tão importante pensar e agir. No próximo dia 11 de dezembro há uma Greve Geral. É Greve porque é grave!


1.  Monteiro, Luís. (2013, 28 de outubro). A Greve Geral É Para Todos? in A Comuna. https://www.acomuna.net/index.php/contra-corrente/3511-a-greve-e-para-todos