Falar de política é falar de discurso, porque falar é agir. As palavras mudam o mundo. Somos diariamente confrontados com discursos nas redes sociais, a maior parte de ódio. Muitos deles veiculam, implícita ou explicitamente, teorias da conspiração que moldam a opinião pública, colocando a discussão política nacional em torno da imigração em detrimento dos temas trazidos a debate pela esquerda nas ruas e no Parlamento (justiça fiscal, saúde, educação, trabalho).
Outros discursos sobre o “marxismo cultural” e o “globalismo”, que também já entraram no Parlamento português, sob influência norte-americana, colocam a questão das teorias da conspiração na ordem do dia. Perante os inúmeros discursos da conspiração que os algoritmos nos apresentam, os partidos de esquerda assumem uma atitude defensiva (raramente ofensiva), tentando explicar factos em publicações com reduzido alcance e impacto. Noutros momentos, ignoram-nas por completo, descurando os seus efeitos na população a médio e longo-prazo.
Como podemos combater este fenómeno? Desmontar teorias da conspiração não é tão simples como parece: uma vez que a pessoa interioriza a crença, é difícil resgatá-la. Estamos sempre a referir-nos ao domínio da crença e não do conhecimento factual. Veja-se que, ainda há pouco, a pandemia da COVID-19 desencadeou uma pandemia paralela de desinformação sob a forma de discursos de conspiração, incluindo explicações sobre a origem do vírus e sobre quem eram os culpados da sua propagação. O mesmo se verificou em relação à vacinação, o que continua a confrontar-nos com novos e delirantes discursos.
Temos assistido como os partidos da extrema-direita europeia utilizam as teorias da conspiração como trunfo político como forma de enfraquecer o trabalho dos cientistas e a confiança nas instituições, à semelhança do que fazem nos Parlamentos. Por outro lado, utilizam-nas com o intuito de criar, na sociedade, as condições de aceitação para justificar cortes na investigação. Não nos enganemos: o discurso da conspiração é anti-intelectualista e é financiado pelos grandes grupos económicos. A violência é a única ferramenta política conhecida de quem detém o monopólio destas teorias, que cultivam uma onda de anti-intelectualismo para atacar a universidade pública e a sua capacidade de se manter crítica durante a barbárie.
O negacionismo está, de facto, a atrasar a ação climática. O relatório do IPIE indica que a maior ameaça sobre a ação climática está no negacionismo de propostas para soluções, quer a nível institucional como online. Estas teorias representam uma ameaça imediata para os indivíduos, as comunidades e a saúde pública. Não devemos apelar à emoção, porque as estratégias emocionais não servem para mudar a crença. Nos debates, levar ou não dados científicos faz pouca diferença para lidar com as pessoas que propagam este tipo de discursos.
A melhor estratégia será sempre ajudar as pessoas a reconhecer informações e fontes não confiáveis antes que sejam expostas às teorias da conspiração. Dotar os nossos alunos de uma mentalidade analítica e ensiná-los explicitamente como avaliar informações serão as armas democráticas do futuro. Atribuir crenças negacionistas à estupidez é tentador, mas ignora o seu objetivo político, que é o da defesa da hierarquia e da ordem, oferecendo a um mundo instável a imagem de uma ordem bem definida. Saibamos reconhecer isso e delinear, à esquerda, uma atuação política assente nos factos, na ciência e na luta de classes, de modo a conseguirmos prever e desmontar eficazmente o discurso conspiracionista.

