{"id":528,"date":"2025-12-09T18:18:30","date_gmt":"2025-12-09T18:18:30","guid":{"rendered":"https:\/\/acontradicao.pt\/?p=528"},"modified":"2025-12-09T18:19:57","modified_gmt":"2025-12-09T18:19:57","slug":"alerta-camaradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acontradicao.pt\/?p=528","title":{"rendered":"Alerta! Camaradas"},"content":{"rendered":"\n<p>Este ano celebraram-se os 50 anos do Festival da Can\u00e7\u00e3o de 1975, edi\u00e7\u00e3o realizada no fervor do PREC, que ambicionava retratar o panorama musical emergido ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril e colocar sob rasura o que se associava ao salazarismo. O certame, o maior ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o com as massas, figurava como um espa\u00e7o preponderante na disputa da cultura, bem como uma oportunidade \u00edmpar para apresentar uma can\u00e7\u00e3o na Europa, que evidenciasse as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais ocorridas no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o, houve um esfor\u00e7o por convidar compositores considerados progressistas, que refletissem a diversidade ideol\u00f3gica das v\u00e1rias tend\u00eancias \u2013 mais radicais ou mais moderadas \u2013 associados ao campo pol\u00edtico da esquerda. Os temas versaram sobre a Revolu\u00e7\u00e3o, o fim do Estado Novo e da Guerra Colonial, mas tamb\u00e9m sobre as preocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais que marcavam a \u00e9poca. O Grupo de A\u00e7\u00e3o Cultural [GAC] leva <em>Alerta!<\/em>,que, por ser a can\u00e7\u00e3o mais panflet\u00e1ria, beneficiava de um apoio vigoroso da imprensa e dos cr\u00edticos. Esta era, tamb\u00e9m, a can\u00e7\u00e3o mais program\u00e1tica, apresentando as linhas-mestras do programa da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Popular [UDP] e, de acordo com Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, o posicionamento ideol\u00f3gico do GAC na \u00abluta pela Democracia Popular e pela Ditadura do Proletariado\u00bb.1<sup data-fn=\"480c314c-b2d3-479e-af60-04ec857f38b1\" class=\"fn\"><a id=\"480c314c-b2d3-479e-af60-04ec857f38b1-link\" href=\"#480c314c-b2d3-479e-af60-04ec857f38b1\">1<\/a><\/sup> Por outro lado, S\u00e9rgio Godinho comp\u00f5e <em>A Boca do Lobo<\/em>, cujo enfoque era a cr\u00edtica pol\u00edtica ao que ainda n\u00e3o estava totalmente liquidado do Estado Novo e \u00e0 poss\u00edvel interven\u00e7\u00e3o estrangeira dos que temiam um caminho socialista para o pa\u00eds, anunciando que esse processo coletivo j\u00e1 se encontrava em curso e iria ser conclu\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>A RTP tinha optado por alterar o sistema de voto, deixando o mesmo a cargo dos letristas e compositores, que, atrav\u00e9s das declara\u00e7\u00f5es de voto \u2013 transformadas em comunicados pol\u00edticos \u2013 disputaram n\u00e3o s\u00f3 o conte\u00fado po\u00e9tico e sonoro do que deve ser a <em>m\u00fasica popular portuguesa<\/em>, mas, acima de tudo, de que pa\u00eds construir. Estava em litig\u00e2ncia a imagem do pa\u00eds que se pretendia transmitir para o povo e para a Europa e, para Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco e o GAC, a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser apenas de den\u00fancia; tinha de impelir \u00e0 a\u00e7\u00e3o e luta. Tal como as restantes can\u00e7\u00f5es, a can\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Godinho recebeu a pontua\u00e7\u00e3o m\u00ednima da parte do GAC, que considerava que \u00abtodas elas [can\u00e7\u00f5es] sa\u00edram da mesma panela em que a burguesia cozinha os seus grandes lucros comerciais. Os festivais do tempo do fascismo davam-nos gato por lebre; agora d\u00e3o-nos gato por lebre com cravos de liberdade\u00bb. Na confer\u00eancia de imprensa do GAC, justificam o voto, acrescentando que <em>A Boca do Lobo <\/em>seria \u00abuma can\u00e7\u00e3o que, embora n\u00e3o sublinhe expressamente as posi\u00e7\u00f5es dos partidos burgueses, reformistas e revisionistas \u2013 que traem o povo a cada hora \u2013, tamb\u00e9m n\u00e3o as desmente; n\u00e3o as anula; n\u00e3o se coloca contra elas\u00bb (Balan\u00e7o do XII Grande Pr\u00e9mio TV da Can\u00e7\u00e3o 1975, 1975, 21:19-23:15).<\/p>\n\n\n\n<p>Num per\u00edodo em que os partidos tentavam afirmar-se em termos nacionais a pensar nas elei\u00e7\u00f5es que ocorreriam em 25 de abril, estas can\u00e7\u00f5es carregaram as divis\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas e tiveram um papel ativo na defini\u00e7\u00e3o do mapa pol\u00edtico, cultural e social neste pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o. Cristalizou-se a imagem de uma edi\u00e7\u00e3o singular, profundamente radical, mas, na verdade, o Festival da Can\u00e7\u00e3o de 1975 evidencia o confronto no campo pol\u00edtico da esquerda entre aqueles que defendiam mudan\u00e7as mais radicais e aqueles que queriam que a mudan\u00e7a fosse pautada por um tom de concilia\u00e7\u00e3o. No final da vota\u00e7\u00e3o, <em>A Boca do Lobo <\/em>terminou em 2.\u00ba lugar com 59 pontos, face aos 61 pontos obtidos por <em>Madrugada<\/em>. Ganhou, provavelmente, a menos interventiva de todas as can\u00e7\u00f5es a concurso, que, ainda assim, enunciava a viol\u00eancia da Guerra Colonial e carregava, em si, um v\u00e9u de esperan\u00e7a e emo\u00e7\u00f5es p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Decorridos 50 anos, o contexto pol\u00edtico alterou-se substancialmente: a esquerda est\u00e1 reduzida a m\u00ednimos hist\u00f3ricos desde o 25 de Abril e os cravos de liberdade v\u00e3o ficando cada vez mais amea\u00e7ados. A isto, a esquerda responde como h\u00e1 50 anos: gladia-se entre si pela determina\u00e7\u00e3o de qual o partido que melhor aponta os caminhos da luta; qual recorre a uma orquestra\u00e7\u00e3o <em>pop;<\/em> qual o mais burgu\u00eas e reformista. Pelo caminho, deixou a Ditadura Prolet\u00e1ria e a vontade de impelir \u00e0 a\u00e7\u00e3o e \u00e0 luta. Restou, apenas, uma resist\u00eancia vazia ao fascismo e a den\u00fancia frouxa dos v\u00edcios da democracia burguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>A diversidade ideol\u00f3gica da esquerda sempre existiu e recomenda-se que exista. Por\u00e9m, nestas elei\u00e7\u00f5es presidenciais, o contexto hist\u00f3rico exigia que, ao inv\u00e9s de se acantonarem na disputa de quem \u00e9 o vencedor dos 4% e o perdedor dos 2%, o BE, o Livre, o PCP e o PEV soubessem colocar os interesses do povo em primeiro lugar e apoiar um candidato presidencial de esquerda que conseguisse mobilizar e impelir \u00e0 luta. N\u00e3o com ambi\u00e7\u00f5es meramente eleitorais, uma vez que o somat\u00f3rio de votos deste espa\u00e7o pol\u00edtico, atualmente, bastante reduzido, n\u00e3o seria sequer suficiente para chegar a uma segunda volta; pelo contr\u00e1rio, com o objetivo pol\u00edtico de estabelecer as pontes necess\u00e1rias para a cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o mais amplo e plural, capaz de projetar um horizonte de expetativa e criar a mobiliza\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para as lutas dos pr\u00f3ximos tempos. Preferir, em nome da identidade pr\u00f3pria e da luta pela sobreviv\u00eancia e afirma\u00e7\u00e3o perante os restantes partidos de esquerda, lan\u00e7ar diferentes candidatos presidenciais que, nem disputam, nem criam espa\u00e7o pol\u00edtico, \u00e9 um profundo desservi\u00e7o que fazemos. No Festival da Can\u00e7\u00e3o de 1975, as diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas no campo mais \u00e0 esquerda deixaram <em>A Boca do Lobo<\/em> a dois pontos da vit\u00f3ria sobre <em>Madrugada. <\/em>Neste momento, estamos a muitos mais pontos do vencedor \u2013 e este est\u00e1 longe de ser <em>Madrugada.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A Boca do Lobo <\/em>tem vindo a apertar; e apertar\u00e1 cada vez mais. Aos partidos de esquerda compete inverter a mar\u00e9: saibamos privilegiar o povo, escolher as batalhas certas e lutar o verdadeiro lobo. Nunca nos esque\u00e7amos, tal como Carlos Carvalheiro cantou: \u00abA gente vai acabar \/ Com a boca do lobo \/ A morder na nuca do povo\u00bb.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<ol class=\"wp-block-footnotes has-small-font-size\"><li id=\"480c314c-b2d3-479e-af60-04ec857f38b1\">A utiliza\u00e7\u00e3o de <em>Ditadura Prolet\u00e1ria <\/em>foi introduzida na can\u00e7\u00e3o para vincar as diverg\u00eancias entre a UDP e o PCP, que tinha retirado a express\u00e3o dos seus Estatutos, no VII Congresso (Extraordin\u00e1rio), em 20 de outubro de 1974. <a href=\"#480c314c-b2d3-479e-af60-04ec857f38b1-link\" aria-label=\"V\u00e1 para a refer\u00eancia 1 das notas de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ano celebraram-se os 50 anos do Festival da Can\u00e7\u00e3o de 1975, edi\u00e7\u00e3o realizada no fervor do PREC, que ambicionava retratar o panorama musical emergido ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril e colocar sob rasura o que se associava ao salazarismo. 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