{"id":336,"date":"2025-03-07T12:34:17","date_gmt":"2025-03-07T12:34:17","guid":{"rendered":"https:\/\/acontradicao.pt\/?p=336"},"modified":"2025-03-08T13:42:44","modified_gmt":"2025-03-08T13:42:44","slug":"aqui-dentro-de-ca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acontradicao.pt\/?p=336","title":{"rendered":"Aqui Dentro de Casa"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1972 \u00e9 lan\u00e7ado o segundo \u00e1lbum de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco \u2013 Margem de Certa Maneira \u2013, uma obra que traduz na sua sonoridade os tempos vividos em Portugal: a \u00e2nsia pela mudan\u00e7a, pela liberdade e companheirismo naqueles que, na sua condi\u00e7\u00e3o de classe, nos s\u00e3o pr\u00f3ximos. Por\u00e9m, entre as m\u00fasicas inclu\u00eddas h\u00e1 uma que destaco: Aqui Dentro de Casa. Nesta, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco assume o papel de \u201cMarta\u201d uma mulher que se encontra apaixonada por um militante de esquerda; num amor t\u00e3o assoberbador que a faz, por momentos acreditar que este mero homem \u00e9 capaz de apagar \u201c<em>a luz do dia ou a luta de classes<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da can\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma estrofe que se repete essencialmente inalterada, ao contr\u00e1rio do seu significado e mensagem com o decorrer do tempo na vida de \u201cMarta\u201d:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mariazinha fui<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em Marta me tornei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Vou daquilo que fui<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Pr&#8217;\u00e0quilo que serei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Da primeira vez que ouvimos Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco a proferir estas palavras somos apresentados a este grande amor de \u201cMarta\u201d. Um homem assumidamente de esquerda a quem esta se rende de forma apaixonada e se atira de cabe\u00e7a. <em>Meus olhos verdes ceguinhos de todo para te servir. <\/em>Evoca tamb\u00e9m a figura de Cristo neste primeiro vislumbre que temos dos sentimentos de Marta que acaba por fazer esta sua transi\u00e7\u00e3o de crian\u00e7a, inocente \u2013 de \u201cMariazinha\u201d \u2013 para a figura de mulher \u2013 \u201cMarta\u201d \u2013 despertada por este seu grande amor na vida por este camarada sem nome. Mais tarde, veremos que \u201cMarta\u201d foi sempre \u201cMariazinha\u201d sob a al\u00e7ada deste.<\/p>\n\n\n\n<p>E aquilo que sabemos da rela\u00e7\u00e3o de Marta com este militante vai sendo descrito, em primeira pessoa, por Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco. Sabemos que tiveram filhos e que ficou a encargo de \u201cMarta\u201d a manuten\u00e7\u00e3o do lar \u2013 <em>Filhos e cadilhos \/ Panelas e fundilhos \/ Meteste as minhas m\u00e3os \u00e0 obra <\/em>\u2013, o que a acaba por alienar de si mesma e da sua condi\u00e7\u00e3o. Embora aparentemente fict\u00edcia, a viv\u00eancia de \u201cMarta\u201d \u00e9 tudo menos isso. A introdu\u00e7\u00e3o das mulheres ao trabalho fora dos seus lares data de h\u00e1 uns bons anos \u2013 n\u00e3o irei especificar quantos pois bem sabemos o peso que a no\u00e7\u00e3o de classe tem nesta discuss\u00e3o (a verdade \u00e9 que as mulheres pobres sempre trabalharam fora de casa) \u2013, mas esta introdu\u00e7\u00e3o ao mercado de trabalho em pouco diminuiu a sua carga hor\u00e1ria no que concerne as tarefas do lar. Ali\u00e1s, um estudo levado a cabo pela CGTP em 2021 aponta para o facto de que 78% das trabalhadoras fazem em m\u00e9dia uma hora e treze minutos de trabalho dom\u00e9stico, por sua vez, os homens que dedicam pelo menos uma hora ao trabalho dom\u00e9stico s\u00e3o apenas 19%. Naturalmente \u201cMarta\u201d n\u00e3o teria grande tempo para ler Marx ou para participar em debates com os demais camaradas na clandestinidade enquanto tinha aos seus ouvidos crian\u00e7as a chorar, bra\u00e7os pesados de roupa por lavar ou as m\u00e3os cheias de colheres para servir a sopa.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, isto n\u00e3o inibiu \u201cMarta\u201d de perceber que algo aqui n\u00e3o estava certo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><br><em>Pegas-me na m\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E falas do patr\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que te paga um sal\u00e1rio de fome<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Do teu patr\u00e3o que te rouba o que come<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Falas contigo sozinho p&#8217;ra desabafar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Meus olhos parados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mudos e cansados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o podem ouvir o que dizes<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E fico \u00e0 espera que me socializes<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Meus olhos verdes boneca privada do teu bem-estar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Surge um despertar de uma consci\u00eancia de si mesma. De que esta autodenomina\u00e7\u00e3o como comunista, como militante pela liberta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do seu amado n\u00e3o o inibia de replicar os mesmos comportamentos que ele pr\u00f3prio jurava combater. Da mesma forma que o patr\u00e3o n\u00e3o lhe pagava o suficiente para sobreviver, este marido sem nome tamb\u00e9m n\u00e3o permite a \u201cMarta\u201d viver de forma livre \u2013 \u00e0s suas costas ter\u00e1 sempre a casa para limpar, os filhos para cuidar e o marido para receber. Talvez n\u00e3o falte p\u00e3o em cima da mesa, mas certamente falta algo mais \u2013 a liberdade. A liberdade no seu sentido mais objetivo dado o contexto em que a m\u00fasica \u00e9 escrita, isto \u00e9, a liberta\u00e7\u00e3o do regime opressor do Estado Novo, mas tamb\u00e9m a liberdade da condi\u00e7\u00e3o feminina \u2013 do patriarcado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A tua vontade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Justi\u00e7a e igualdade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>N\u00e3o chega aqui dentro de casa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Eu s\u00f3 te sirvo para a mar\u00e9 vasa<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas eu j\u00e1 sinto a minha mar\u00e9 cheia a subir<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Meus olhos cansados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Abrem-se espantados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>P&#8217;r\u00e0 vida de que me falavas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>P&#8217;ra combater contra os donos de escravas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Meus olhos verdes que te v\u00e3o falar e que tu vais ouvir<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta \u00faltima parte, \u201cMarta\u201d inteira-se da sua condi\u00e7\u00e3o como oprimida mas n\u00e3o o faz sem deixar de declarar guerra aos \u201cdonos de escravas\u201d, \u00e0queles que se servem do patriarcado e que o perpetuam para se manterem confort\u00e1veis, com um certo <em>status quo<\/em> que passa despercebido sob os radares escrutinadores de outros camaradas homens. Porque faz parte da \u201cnatureza da mulher\u201d ser m\u00e3e, ser esposa, ser criada \u2013 mas nunca ser pessoa. E como \u00e9 que podemos bradar aos c\u00e9us que queremos a liberta\u00e7\u00e3o dos subalternos se depois reproduzimos estes mesmos mecanismos de opress\u00e3o que juramos derrubar?<\/p>\n\n\n\n<p>Embora escrita h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo, Aqui Dentro de Casa continua a carregar consigo uma mensagem important\u00edssima para a esquerda do espectro pol\u00edtico. Algo que, uma vez que estamos no m\u00eas em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, n\u00e3o podia deixar de ser relembrado. \u00c9 na esquerda marxista que encontramos a luta contra o capitalismo e, consequentemente a luta contra as demais opress\u00f5es que deste se alimentam, mas desengane-se quem acredita que isto se traduz numa \u201cutopiza\u00e7\u00e3o\u201d dos espa\u00e7os de milit\u00e2ncia \u00e0 esquerda. A ideia de \u201cespa\u00e7os seguros\u201d \u00e9 err\u00f3nea, n\u00e3o \u00e9 por estarmos rodeadas de pessoas de esquerda que n\u00e3o iremos assistir \u2013 ou ser alvos \u2013 de comportamentos que publicamente ser\u00edamos r\u00e1pidos a condenar. Neste aspeto o machismo e a misoginia n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E podemos \u2013 e devemos \u2013 discutir as grandes pensadoras feministas dos nossos e dos tempos passados, podemos colocar mulheres em lugares eleg\u00edveis e devemos lutar por desconstruir as mil e uma formas nas quais o patriarcado nos atinge, mas de pouco isto servir\u00e1 enquanto n\u00e3o houver a morte do nosso machista interior \u2013 algo do qual somos todos c\u00famplices.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMarta\u201d percebeu em primeira m\u00e3o que a sua liberta\u00e7\u00e3o enquanto trabalhadora n\u00e3o se poderia fazer dissociada da sua liberta\u00e7\u00e3o enquanto mulher. O patriarcado n\u00e3o nasceu com o capitalismo, antecede-o, e a destrui\u00e7\u00e3o do capitalismo n\u00e3o poder\u00e1 nunca ser dissociada do fim do patriarcado. Esta \u00e9 uma cren\u00e7a que teremos de levar como facto para a nossa luta se almejamos construir um mundo livre, sem classes, sem opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por uma \u00faltima vez, ouvimos a estrofe do in\u00edcio, mas h\u00e1 um novo sentimento a ela anexado. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o de quem a \u201cMarta\u201d foi este tempo todo \u2013 nunca foi \u201cMarta\u201d \u2013 foi sempre \u201cMariazinha\u201d. Foi sempre ref\u00e9m da sua pequenez, ora uma pequenez real, isto \u00e9, de idade, ora uma fabricada pela domina\u00e7\u00e3o do seu marido sobre si e da situa\u00e7\u00e3o de subalterna num mundo patriarcal. Mas, agora, plenamente consciente do seu potencial e da sua emancipa\u00e7\u00e3o, pode-se afirmar \u201cMarta\u201d, aquilo que sempre foi, uma mulher de pleno direito, t\u00e3o merecedora de liberta\u00e7\u00e3o como os seus camaradas homens.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 data em que Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco escreveu a m\u00fasica foi alvo de in\u00fameras cr\u00edticas \u00e0 esquerda, a maior parte delas vindas precisamente de homens assumidamente de esquerda \u2013 claramente meteu o dedo na ferida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Mariazinha fui<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em Marta me tornei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sei aquilo que fui<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E que jamais serei<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1972 \u00e9 lan\u00e7ado o segundo \u00e1lbum de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco \u2013 Margem de Certa Maneira \u2013, uma obra que traduz na sua sonoridade os tempos vividos em Portugal: a \u00e2nsia pela mudan\u00e7a, pela liberdade e companheirismo naqueles que, na sua condi\u00e7\u00e3o de classe, nos s\u00e3o pr\u00f3ximos. 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