UMA ESQUERDA SOBERANISTA*

Manolo Monereo

Não se trata de um fantasma, é algo mais material, mais molecular, mais consistente: a emergência de uma esquerda soberanista.

Entendamo-nos, uma esquerda que pretende reconciliar novamente a emancipação social, a soberania popular e a reconstrução de um Estado democrático avançado.

A reconciliação passa por inverter o rumo que, durante mais de trinta anos, opôs estes valores à esquerda realmente existente, considerando-os relíquias de um passado que não voltará ou, pior ainda, obstáculos a superar para enfrentar os reptos desta modernidade tardia.

Vivemo-lo todos os dias, às vezes, como aqui e agora em Espanha, dramaticamente. Primeiro, toma-se nota com grande alarme do renascimento de velhos e novos nacionalismos e da tendência à fragmentação e à rutura territorial em diversos Estados; segundo, defende-se veementemente a globalização e o modo específico como se concretiza no nosso continente, isto é, a União Europeia entendida sempre como irreversível e inevitável, à qual cabe unicamente articular, aligeirar ou democratizar; terceiro, propõe-se aprofundar a integração supranacional e a progressiva perda de soberania dos Estados na perspectiva de um longínquo momento para onde se caminhava, mais ou menos, na direcção de uns Estados Unidos da Europa.

Como se pode perceber, a chave deste argumentário assenta no facto destes três pressupostos não se relacionarem entre si. Como é que vamos estranhar que, quando de forma planeada se está a desconstruir os Estados europeus realmente existentes, renasçam ou se revigorem novos ou velhos nacionalismos? Como não entender que quando a democracia como autogoverno da cidadania perde peso e influência perante poderes económicos oligárquicos, ou não democráticos como as instituições europeias, renasçam reivindicações de soberania, de identidade e de protecção? Como não compreender o afastamento perante instituições e partidos políticos tradicionais quando se foram rompendo as regras de um pacto implícito que unia capitalismo regulado e democracia política e direitos sociais?

Alguns de nós falam de que a Europa vive um “momento Polanyi”. Mais de três décadas de hegemonia de políticas neoliberais foram enfraquecendo o poder dos trabalhadores na sociedade, limitando direitos sociais fundamentais e reduzindo substancialmente o Estado social. Pode-se dizer que a mais integração europeia corresponde menos democracia real e menos direitos efetivos para as maiorias sociais. O “mercado autorregulado” tem avançado muito e, como nos ensinou o velho socialista austríaco, as sociedades estão a reagir e fazem-no com os “materiais” disponíveis e desde pressupostos políticos muitas vezes antagónicos. Em todo o lado, com reivindicações de soberania num sentido preciso: direito a decidir o modelo social, o modelo político, o modelo territorial; as populações não são nada, não têm poder, vêem como as suas condições de vida e de trabalho pioram e como o horizonte de “sentido” se bloqueia e fecha.

A reacção da sociedade, numa ou outra direção, não é algo pré-moderno ou um atavismo de um passado que se recusa a desaparecer. É a consequência de uma modernização capitalista num momento de crise da globalização neoliberal realmente existente. As populações reclamam em todo o lado o mesmo: soberania, Estado, ordem, proteção, segurança, futuro. Como a história mostrou na anterior globalização e nas diversas crises do capitalismo, a reação da sociedade produz-se no marco de correlações de forças predeterminadas e podem ir para a direita, a direita extrema ou para a esquerda nas suas diferentes variantes. Não é assunto para aprofundar demasiado neste prólogo; basta dizer que a encruzilhada em que nos encontramos pode ser definida nos seguintes termos: a crise de um capitalismo sem alternativa.

O livro de Carlo Formenti* entra de frente nesta problemática que acabo de esboçar. Carlo, é bom sublinhá-lo, é um sociólogo competente, foi ativista sindical durante muito tempo e expoente máximo da chamada cultura obreirista italiana. Nos últimos anos dedicou-se com paixão e rigor a uma crítica dos supostos teóricos e políticos que têm vindo a formar o imaginário de uma parte considerável da esquerda social italiana. Formenti é um especialista das novas tecnologias e das suas relações com a produção, a economia e a estrutura social. Poder-se-ia dizer que tem vindo a elaborar uma crítica do “uso capitalista” das modernas tecnologias da informação e da comunicação.

O choque tem sido duro. O debate com o obreirismo dominante continua aberto e Formenti tem tido que aguentar críticas pouco elegantes e desqualificações grosseiras. A polémica é tão antiga como a história do marxismo entre aqueles que colocam a tónica no desenvolvimento impetuoso das forças produtivas e como estas mudam as relações sociais, e aqueles outros que a colocam na materialidade da luta de classes, na subjetividade organizada como algo não alheio, mas parte substancial das próprias forças produtivas. Não é por coincidência que o livro de Formenti acaba com um anexo dedicado à ontologia do ser social de Lukács.

Um prólogo nunca deveria resumir um livro e, muito menos, servir de instrumento para o discutir com o autor. Não o farei, indicarei apenas alguns nós que o tornam especialmente relevante para o nosso presente, sempre com o ânimo de convidar a uma leitura crítica. O título, A variante populista, tem muito de provocação. Os que como nós empregam o termo populista ou populismo de esquerda fazem-no conscientemente. Usar a provocação como um murro em cima da mesa para revelar uma realidade que se quer negar com a desqualificação de populista. Formenti dí-lo claramente: o populismo é a forma da luta de classes hoje, aqui e agora. Dita a provocação e carregada de sentido, começamos a discutir a sério os problemas da nossa sociedade desde o ponto de vista das classes trabalhadoras.

Carlo Formenti faz uma análise muito séria deste capitalismo financeirizado que, ao que parece, não tem alternativa. Submete a uma crítica profunda as análises dominantes do que poderíamos apelidar de esquerda “globalista” a partir de uma avaliação sensata da real correlação de forças existente, fazendo um enorme esforço por entender as transformações que se produziram nas classes trabalhadoras, no velho e novo proletariado. Fá-lo contundentemente, sabendo do que fala e a partir de um ponto de vista anticapitalista e com aspiração socialista.

Inevitavelmente, falar de populismo significa polemizar com Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Formenti fá-lo com respeito mas com radicalidade, tentando ir para além dos mencionados autores a partir de uma estratégia nacional-popular que tem no centro Antonio Gramsci. Dos nós a que me referi anteriormente, quero analisar um que me parece fundamental. Refiro-me à contraposição entre uma economia social e moral baseada nos fluxos oposta a uma economia baseada no território. Esta contraposição parece-me decisiva. O que poderíamos apelidar de territorialidade do poder, entendida como uma apropriação coletiva de um espaço que procura a inserção harmoniosa num meio de que somos parte e, a partir daí, construir um modo de vida capaz de integrar novas tecnologias, qualificação e emancipação da força de trabalho e das formas de organização social que promovam a solidariedade, o altruísmo e o bem-estar das pessoas. Para Formenti, o “atraso” pode ser um progresso. Muitos de nós estão a refletir com ele sobre a necessidade de um novo “meridionalismo” que converta o nosso Sul desqualificado, denegrido e dependente numa alternativa possível que nos reencontre com o Norte numa mudança de civilização, de modos de vida, a partir de uma lógica socialista e fraterna.

– *Prólogo do livro “A variante populista: A luta de classes no neoliberalismo”, de Carlos Formenti

Advogado, politólogo e deputado do Unidos Podemos.

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