O ecologismo de Marx

Joaquim Sempere

O ecologismo apareceu enquanto corrente influente nos Estados Unidos e na Europa Ocidental nos anos 60 do século XX, à margem das esquerdas tradicionais e, em particular, do marxismo. Algumas das suas correntes foram inclusivamente apresentadas como uma superação da oposição entre direita e esquerda, com o argumento de que os conflitos sociais (especialmente aqueles entre classes) estavam destinados a ficar num plano secundário diante de um problema fundamental: a agressão humana contra o meio ambiente. Esta agressão afetava o mundo inteiro, era um problema da humanidade, não de uma parte, nem de uma classe social. Mas nem todo o ecologismo pensava assim. Um setor, que se tornou maioritário no seu meio, considerava que a destruição ambiental era resultado da dinâmica expansiva, dominante e privatizante do capitalismo, e que, portanto, o ecologismo tinha que ser anticapitalista.

Até que ponto os fundadores do socialismo moderno estavam cientes do problema? Muita tinta escorreu sobre o assunto. No caso de Marx e Engels, fundadores da corrente mais influente da esquerda socialista, a controvérsia foi intensa. Alguns acusaram-nos de ignorarem a questão ecológica, outros de terem posições abertamente “produtivistas” e, como tal, antiecológicas e cúmplices de desenvolvimentos industriais extremamente destrutivos do meio ambiente. As práticas inequivocamente produtivistas dos regimes autodenominados marxistas reforçavam esse argumento. O bicentenário do nascimento de Marx é uma boa ocasião para rever o que há de verdadeiro nessas críticas.

Marx considerava que a burguesia, ao impulsionar o industrialismo capitalista, criou um novo mundo, introduzindo inovações que multiplicavam as capacidades humanas para transformar o ambiente e trazer melhorias graças à aplicação da ciência e da tecnologia à produção. A burguesia, com isto, também gerava os pré-requisitos necessários para avançar em direção a uma nova etapa da história humana, a uma era de fraternidade: o socialismo ou comunismo. O maquinismo e a concentração de trabalhadores em fábricas deram origem a um novo modo socializado de trabalho e produção que, graças à divisão do trabalho dentro da empresa, incrementava a produtividade do trabalho humano e fornecia uma infinidade de produtos sem precedentes. E concentrava em grandes fábricas aqueles que seriam os protagonistas das mudanças revolucionárias exigidas pelo novo regime socioeconómico: os proletários, chamados a subverter a ordem capitalista. Mas o maquinismo fragmentava a atividade de cada trabalhador, ao ponto de o converter numa simples peça de uma grande máquina, sujeitando-o à exploração. A exploração, isto é, a expropriação pelo empresário capitalista do produto do trabalho excedente dos trabalhadores, permitia uma acumulação de riqueza nas mãos do empregador. Assim, enquanto assistia ao progresso na indústria mecanizada, Marx via dominação, sofrimento e retrocesso humano. Marx havia aprendido a pensar dialeticamente, percebendo os aspetos opostos de uma mesma realidade, que raramente tem apenas uma faceta. No socialismo moderno, há também uma ideia que é poucas vezes explicitada: a produtividade das forças produtivas modernas permite libertar tempo e energia aos trabalhadores que, emancipados da exploração capitalista, podiam dedicar-se à vida política e à administração da coisa pública sob um regime comunista.

O não entendimento do ponto de vista dialético tem levado muitos leitores e críticos de Marx a interpretar erroneamente algumas das suas ideias. Assim, se o industrialismo capitalista é um passo em direção à libertação dos trabalhadores, parece então que deveria ser indiscutivelmente considerado como um fenómeno positivo. Desse ponto de vista, Marx seria um admirador do progresso técnico e industrial e, como tal, alguém que, de uma maneira ou de outra, contribuiu para implantar ou consolidar a civilização técnica que se está a tornar nefasta para as condições de vida da biosfera e da espécie humana. Por outras palavras, Marx não só não teria nada de ecologista, como também seria uma parte ativa de uma cultura essencialmente contrária à vida e dominadora da natureza.
No entanto, há mais de 30 anos que dispomos de estudos que apontam a presença, na obra de Marx, de ideias que podem ser qualificadas como ecologistas ou protoecologistas. Manuel Sacristán, tradutor de várias obras de Marx (entre elas, o primeiro livro de O Capital) e grande conhecedor da sua obra, publicou em 1984 na revista Mientras Tanto um trabalho intitulado “Alguns vislumbres político-ecológicos de Marx” (retirado do volume Manuel Sacristán, Pacifismo, ecologia e política alternativa, Barcelona, ​​Icaria, 1987). Neste trabalho, Sacristán explicava como Marx denunciava a degradação, no sistema capitalista, tanto da integridade e saúde dos trabalhadores como da fertilidade da terra, duas realidades naturais – trabalho humano e terra – que são, segundo Marx, “as duas fontes através das quais emana toda a riqueza”. Marx e Engels estavam cientes de um problema que preocupou muitos cientistas e estadistas do século XIX: a perda de nutrientes das terras agrícolas numa época de crescimento demográfico, e a irracionalidade metabólica característica de grandes cidades que importavam muitos alimentos dos campos, mas não devolviam os nutrientes à terra, despejando-os para os rios, contaminando-os e assim desperdiçando um recurso valioso. A rutura da circularidade dos nutrientes punha em xeque tanto a viabilidade económica de longo prazo da agricultura capitalista, bem como a viabilidade ecológica das grandes cidades, a tal ponto que, em Anti-Dühring, Engels afirma: “Com as grandes cidades, a civilização deixou-nos uma herança que custará muito tempo e trabalho para eliminar; mas as grandes cidades devem ser eliminadas, e serão, embora através de um processo lento”.

Marx, segundo Sacristán, acreditava que “no momento da construção de uma sociedade socialista, o capitalismo terá destruído completamente o relacionamento correto da espécie humana para com o resto da natureza (…) E então atribui uma tarefa à nova sociedade – refere literalmente – de ‘produzir sistematicamente’ este intercâmbio entre a espécie humana e o resto da natureza. (…) A sociedade socialista é assim caracterizada como aquela que estabelece a viabilidade ecológica da espécie”[1]. Como se pode observar, Sacristán expõe nos textos de Marx e Engels algumas visões inequivocamente “ecologistas” e uma perceção muito precisa de uma característica essencial do capitalismo: a rutura da circularidade das trocas entre os seres humanos e o meio ambiente, que são a condição básica da continuidade da vida humana na terra. Marx usou profusamente o termo “metabolismo” – no alemão Stoffwechsel, isto é, o intercâmbio de materiais, que nada mais é do que a definição de “metabolismo” – um termo tipicamente ecológico, e que diz muito sobre a consciência de Marx sobre essa questão. A observação de Marx de que o socialismo estava destinado a estabelecer “a viabilidade ecológica da espécie [humana]” é explicitada no Livro III d’O Capital, onde se caracteriza a sociedade sem classes, o comunismo, que supostamente há de suceder ao capitalismo, não apenas como uma sociedade livre de exploração e insegurança, mas também como uma sociedade na qual “os seres humanos regularão conscientemente o seu metabolismo com a natureza”. Esta frase, geralmente pouco comentada pelos leitores e intérpretes d’O Capital, ressalta até que ponto Marx estava consciente da dimensão ecológica da vida humana, do papel destrutivo do capitalismo em relação a essa dimensão e até da missão regenerativa que corresponderia ao socialismo no futuro.

Em 2000, foi publicada a obra de John Bellamy Foster Marx’s Ecology. Materialism and Nature (traduzido para o castelhano com o título La ecología de Marx. Materialismo y naturaleza, El Viejo Topo, 2004), uma obra consistente e muito documentada sobre o tema, que esclarece muitos pontos. Este livro fornece elementos adicionais que permitem obter uma ideia mais precisa do ecologismo de Marx, a partir de um caminho muito detalhado das diferentes tradições científicas e materialistas que influenciaram o autor, desde Epicuro (a quem ele acaba por dedicar a sua tese de doutoramento) e Lucrécio até aos pensadores europeus e à ciência natural. Foster explica, nos livros de leitura de Marx, como este se interessou, entre outros, pela geologia histórica, pela teoria evolucionista de Darwin e pela química agrícola, especialmente por Justus von Liebig, que denunciou a inviabilidade a longo prazo da agricultura capitalista. Também inclui múltiplos pronunciamentos tanto de Marx como de Engels sobre o assunto. Este último, numa carta enviada a Marx, enfatizou o desperdício das “nossas reservas de energia, do nosso carvão” (que é caracterizado como “calor solar do passado”) e das florestas, indicando os efeitos devastadores da desflorestação[2].

Foster relaciona a consciência marxista da “fratura metabólica” (termo usado por Marx) com a obsessão pela divisão antagónica entre cidade e campo. E alude a um tema que a crítica ecologista moderna colocou em evidência explicando que o comércio desigual implica a pilhagem de recursos naturais, isto é, o uso e consumo, pelos países ricos, da terra e água dos países pobres quando os primeiros importam produção animal, vegetal ou animal dos países pobres: “Para Marx – diz Foster – a fratura metabólica ao nível social com a divisão antagónica entre cidade e campo também se manifestava a um nível mais global: as colónias assistiam impotentes ao roubo das suas terras, dos seus recursos e do seu solo, ao serviço de industrialização dos países colonizadores”. Seguindo Liebig, que havia afirmado que “a Grã-Bretanha rouba de todos os países as condições da sua fertilidade” e assinalando a Irlanda como um exemplo extremo, Marx escreve: “A Inglaterra exportou indiretamente o solo da Irlanda sem sequer deixar aos seus cultivadores os meios para substituir os elementos constituintes do solo empobrecido” (p. 253). É claramente evidente que, nestas observações, Marx aponta para uma visão do imperialismo que vai muito além da exploração em termos de valor económico, e que inclui o saque e a transferência física de recursos naturais: fertilidade da terra, minerais do subsolo, água. Foster também relembra que Engels transmitiu a Marx a notícia dos trabalhos de Podolinski sobre fluxos de energia e de valor, apenas alguns meses antes da morte de Marx. Por sua vez, Marx descartou as inferências de Podolinski por serem simplistas, mas sem negar a sua pertinência.

Outras observações indicam até que ponto a consciência ecológica avançou na mente e na obra de Marx. Uma é o esboço da noção de sustentabilidade ecológica na ideia de continuidade da espécie humana ou “cadeia de gerações”, quando diz, por exemplo, no Livro I d’O Capital, que “a agricultura tem que se preocupar com todo o leque de condições permanentes da vida que a cadeia das gerações humanas requer”, ou quando se refere às “condições eternas da existência humana impostas pela natureza”[3].Outra observação, esta mais socioecológica, merece uma atenção especial, porque Marx foi creditado com a ideia de que o desenvolvimento agrícola exige aumentar a escala de produção, ideia que parece ser coerente com uma visão pejorativa do pequeno campesinato como um remanescente do passado. Vejamos como Foster a apresenta:

“(…) A sua análise [de Marx] ensinou-lhe os perigos da agricultura de grande escala, enquanto o fazia ver que a questão principal era a interação metabólica entre os seres humanos e a terra. Consequentemente, a agricultura só poderia existir numa escala considerável onde as condições de sustentabilidade fossem mantidas, o que Marx considerava ser impossível na agricultura capitalista de grande escala. ‘A moral da história – diz Marx no Livro III d’O Capital – (…) é que o sistema capitalista segue na direção oposta à agricultura racional, ou que a agricultura racional é incompatível com o sistema capitalista (embora este promova o desenvolvimento técnico da agricultura) e precisa que os pequenos agricultores trabalhem por conta própria ou controlem os produtores associados’. Marx e Engels argumentaram continuamente nas suas obras que os grandes proprietários de terra eram invariavelmente mais destrutivos em relação à terra do que os agricultores livres” (p. 255).

Surpreendente, certo? Estas observações contradizem a visão habitual de Marx em relação à ecologia. Isto tem uma explicação. Estas perceções de Marx e Engels não foram suficientes para superar a sua visão essencialmente produtiva e a sua confiança, apesar de tudo, no progresso técnico, e não influenciaram o conteúdo básico do corpus teórico transferido para os seus herdeiros, que fixaram a sua atenção na interpretação marxista do desenvolvimento industrial, que o adotaram enquanto paradigma, separando-o dos seus efeitos colaterais ecológicos.
Foster delineia as contribuições de vários autores marxistas que analisaram algumas das reflexões ecológicas de Marx e Engels, como o próprio Kautsky no seu trabalho sobre a questão agrária. Dá um valor especial a Bukharin, que atribuiu um papel importante ao conceito de metabolismo no seu tratado de sociologia. Bukharin atribuiu à agricultura mais importância do que qualquer outro líder bolchevique, facto vinculado à sua defesa dos camponeses contra as tentativas de coletivização forçada da terra. Deu particular importância a Vernadsky, introdutor em 1926 do conceito de “biosfera” e fundador da geobioquímica, de quem Lynn Margulis disse que “foi a primeira pessoa em toda a história a enfrentar as implicações reais do facto de que a terra é uma esfera autónoma”. E a Vavilov, especialista em genética de plantas. Vernadsky e Vavilov viveram e desenvolveram as suas teorias na Rússia soviética. O próprio Lenin estabeleceu em 1920 uma reserva natural na União Soviética, a sul dos Urais, a primeira do mundo designada por um governo ao estudo científico da natureza. Tudo isto leva Foster a referir que “na década de 1920 a ecologia soviética era provavelmente a mais avançada do mundo” (p. 365). Mas, como tantas outras iniciativas inovadoras da revolução soviética, tudo caiu por terra com a contra-revolução stalinista. A URSS implementou um industrialismo rude e uma agricultura química e mecanizada em grandes unidades. Não só foram as práticas agronómicas marcadas pela filosofia do desenvolvimento, como também deram origem a abordagens teóricas e ideológicas que influenciaram todo o movimento de obediência soviética no mundo. Um exemplo chocante de quão longe a tecnolatria está implícita nessa orientação pode ser encontrado na obra coletiva checa A civilização na encruzilhada, dirigida pelo cientista social Radovan Richta, que nos anos 60 do século XX chamou a atenção enquanto uma versão modernizada da filosofia do “socialismo real”. A equipe editorial estava ligada ao programa de democratização de Alexander Dubcek e, portanto, era vista como uma renovação da ideia do socialismo. Mas foi mesmo? Não no repensar da consideração teórica da natureza em relação à espécie humana. Entre outras questões, o trabalho mencionado acima diz: “O mundo que rodeia o homem não é mais uma natureza intacta. (…) Adota traços de uma outra natureza, impostos pelo homem. (…) O homem deixa de ser um simples ser natural e torna-se, em todos os aspetos, um indivíduo social, construído pela civilização”. A grande mudança que os autores deste estudo destacam é uma mudança tecnológica, a modificação de uma tecnologia que fragmenta e aliena as capacidades dos trabalhadores e dos cidadãos, para uma tecnologia “multilateral”, que abre caminho para o seu desenvolvimento próprio e autónomo”. O mérito dessa mudança vem da “revolução científica e técnica”:

A automação, a quimização, a biologização da produção, as técnicas modernas de consumo, os meios de comunicação e o urbanismo tendem atualmente a impedir que as pessoas sirvam o mundo dos objetos. A revolução científica e técnica, como um todo, pode finalmente transformar a civilização enquanto serviço para o ser humano: em adaptar o processo de produção, em construir um modo de vida etc., favorecendo assim o desenvolvimento humano em toda a sua plenitude[4].

É absolutamente revelador que este relatório de 460 páginas na versão francesa não contenha qualquer consideração ou menção à agricultura e à alimentação humana, que não fale da alienação do homem em relação à natureza… em que a palavra “agricultura” não aparece! A sua tecnolatria vai tão ou mais longe do que os documentos da Rand Corporation dos Estados Unidos ou de qualquer outra agência tecnocrática do mundo.

A esquerda precisa de se livrar de toda esta regressão teórica. Duas ameaças irão ajudá-la a fazer isso mesmo: as alterações climáticas e o esgotamento dos combustíveis fósseis e do urânio. Estas duas ameaças não podem ser abordadas sem uma reconsideração radical da fratura metabólica vivenciada nos dois últimos séculos e sem um programa de mutação energética e metabólica a fim de reconstruir a economia com base na sustentabilidade ecológica e na circularidade dos recursos. Reler Marx e Engels com uma nova figuração, que permita recuperar as suas reflexões protoecologistas, superando as suas insuficiências, sem dúvida que ajudará a levar avante este programa de reconstrução.

(Traduzido a partir do artigo com o mesmo título em castelhano, o qual é uma versão parcialmente modificada pelo autor do original publicado na revista Nous Horitzons, nº 218, que comemora o bicentenário do nascimento de Karl Marx)

[1] Manuel Sacristán, “Algunos atisbos político-ecológicos de Marx”, en el volumen Pacifismo, ecología y política alternativa, Barcelona, Icaria, 1987, pp. 146-147. La cita del Anti-Dühring está en la p. 144.
[2] John B. Foster, La ecología de Marx. Materialismo y naturaleza, Barcelona, El Viejo Topo, 2004, pp. 255-256.
[3] J.B. Foster, op. cit., pp. 253 y 252.
[4] Radovan Richta (dir.), La civilisation au Carrefour, París, Éditions Anthropos, 1969, pp. 210-211 y 213.

foto de Ana Mendes

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