Revista

Edição n.º 1 | Outubro de 2018

AUTODETERMINAÇÃO E DEMOCRACIA

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  EDITORIAL

“A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e na compreensão desta práxis” (Marx, 1845). Karl Marx militou pela causa da classe trabalhadora, fez a crítica da política e da ciência do seu tempo, não se fechou em dogmas nem navegou em modas. Neste espaço que junta ativistas sociais e militantes que lutam pelo socialismo, também nós pretendemos dialogar com ideias novas e com as lutas sociais do nosso tempo. Queremos pensar para transformar.

A vingança do Capital contra as conquistas populares feitas nas lutas sociais e anticoloniais do pós-segunda guerra traçou um rumo de esvaziamento da soberania democrática dos povos, esvaziamento da base da democracia e dos direitos sociais. O imperialismo global tem hoje uma série de tratados e instituições internacionais, instrumentos das potências e das classes dominantes na agressão económica ou na guerra, que alienam o poder dos povos, que roubam as classes trabalhadoras do mundo inteiro. A crise económica global veio aprofundar essa rapina, reacendendo o protesto social, e catalisando estratégias conservadoras e reacionárias por parte das classes dominantes.

O ultranacionalismo, antes chamado chauvinismo ou nacionalismo da nação dominante, é a estratégia de massas da viragem conservadora. Política xenófoba, anti-imigração, e anti refugiados alimenta os Trumps do mundo inteiro. Do lado da resistência à imposição do subdesenvolvimento, à rapina de direitos sociais, ao diktat de políticas económicas e laborais gravosas para os povos, desse lado há estratégias de luta pela autodeterminação, pelo direito a decidir, pelo direito à liberdade popular.

Assumimos a perspetiva dos interesses internacionais das trabalhadoras e dos trabalhadores de todos os países. Nesse horizonte que traça um rumo para todas as emancipações, a questão nacional encerra uma das contradições fundamentais do nosso tempo. Decidimos começar a nossa estreia por aí, pela pergunta: o que tem a ver a autodeterminação dos povos com a causa das trabalhadoras e dos trabalhadores?

Xosé Manuel Beiras, militante histórico do nacionalismo e da esquerda da Galiza, apresenta uma tese sobre a nação como realidade socio-política distinta de um Estado que, nacional ou plurinacional, é uma realidade político-institucional. Afirmando os caminhos de uma perspetiva de esquerda para a questão nacional. Luís Fazenda, co-fundador do Bloco de Esquerda, teoriza sobre a autodeterminação (pessoal, sexual, civil, igualitária, nacional, social, classista) como o novo mútuo da comunicação progressista. Manolo Monereo, histórico militante da esquerda espanhola, problematiza a emergência de uma esquerda soberanista e a sua relação com uma estratégia nacional-popular e com o populismo. Natàlia Sánchez, deputada da CUP, escreve sobre os caminhos da luta socialista pela independência da Catalunha. Manuel Loff faz a história recente da luta da Catalunha pela sua autodeterminação. Bruno Góis procura responder à pergunta “os proletários não têm pátria” através das ideias de Marx e de Engels. E Fabian Figueiredo problematiza o direito dos povos ao autogoverno através da análise do pensamento de Lenin e das polémicas em torno da questão nacional no quadro da revolução soviética.