A ESQUERDA PERANTE O CONFLITO ‘ESTADO’ versus ‘NAÇÕES-SEM-ESTADO’: O CASO ESPANHOL ATUAL

A ESQUERDA PERANTE O CONFLITO ‘ESTADO’ versus ‘NAÇÕES-SEM-ESTADO’: O CASO ESPANHOL ATUAL

Xosé Manuel Beiras

1. O conflito entre ‘Estado’ e ‘Nação’.

Estado e Nação são conceitos que dizem respeito a realidades situadas em níveis ou instâncias estruturais diferentes de uma mesma formação social. A nação é uma realidade sócio-política; o estado é uma realidade político-institucional. A nação está no campo da ‘sociedade civil’; o estado situa-se no da ‘sociedade política’ – nos termos definidos por Gramsci. O estado traduz-se num ordenamento jurídico: é uma superestrutura jurídico-política. A nação, não. Na nação existem elementos superestruturais, de índole cultural e ideológica – como em toda ‘sociedade civil’ – mas político-institucionais não. O estado é, nas palavras de Bauer, “a autoridade territorial mais importante”: a sua existência requer um espaço para a vigência das suas instituições jurídico-políticas. Em contrapartida, o território não é um elemento necessário para a existência de uma nação. Os povos nómadas, por exemplo, constituem nações sem território estável; outros estão estendidos por um ou inclusive vários continentes, como o judeu ou o cigano. Os “povos nativos”’ da América são nações – e assim se têm  autoproclamado – à margem dos espaços estatais construídos – e não por eles – nos processos de independência das colónias europeias, desde os maias aos mapuches passando pelos diversos povos andinos. Tratam-se, pois, das que Löwy apelida de “nações extraterritoriais” ou “comunidades nacionais heterodoxas” – entre as quais se inclui, sem dúvida, a “dos negros dos Estados Unidos”. Isto é, realidades ou ‘factos’ nacionais cuja existência colide com definições descritivas ‘à Estaline’: “esse marco rígido e dogmático [que] era um verdadeiro leito de Procusto ideológico”.

Na tradição do pensamento marxista, tanto a nação como o estado são constructos históricos, fenómenos e realidades forjadas pelo devir histórico. É esse o sentido que tem em Bauer a noção de comunidade de destino como atributo complementar aos de comunidade de origem e de cultura no conceito de nação: não num sentido determinista de predestinação de um povo, mas, pelo contrário, um processo dialéctico e aleatório: “compreender a nação como o produto jamais acabado de um processo [histórico] constantemente em curso”. Nesse processo, a formação da nação e do estado, nem são simultâneas, nem ambas culminam necessariamente. Isso se: a nação é lógica e historicamente prévia – pré-existe – ao estado, o qual, como realidade exclusivamente superestrutural, nem pode logicamente construir-se sobre um vazio sociocultural e sociopolítico, nem pode historicamente nascer sem previamente existir a comunidade de origem e de cultura que o engendra e dota de sentido. Mas também, o inverso, que uma nação exista e caminhe na História não predetermina que alcance a construção do seu próprio estado. Não basta que exista objetivamente uma realidade nacional – que pode ser politicamente inerte. Depende também que existam “fatores subjetivos”, na expressão de Löwy, como uma consciência de identidade na sua consciência social, assumida pelo conjunto, ou pela(s) sua(s) classe(s) dominante(s) – nacionalismos ‘burgueses’- , ou pelas dominadas – nacionalismos ‘populares’- e uma vontade de decidir sobre o seu destino: autodeterminar-se. Precisamente as nações que não construíram o seu próprio edifício político-institucional, ou foram desapossadas da sua construção no seu passado, são Nações sem Estado. E eis, então, o problema nacional não resolvido: as conflituosas questões nacionais.

A origem dessa dimensão conflituosa radica na identificação, ou vinculação indissociável, de ‘nação’ com ‘estado’, e do status de nacionalidade com o de cidadania dos indivíduos humanos. E em que a conceção política da nação nasce historicamente com a Revolução Francesa: conversão de todos os indivíduos em ‘homens livres’, transformação dos súbditos em cidadãos, e dos sujets – ‘sujeitos’ ao poder do soberano – em titulares eles mesmos da soberania política. É o processo revolucionário que consagra o triunfo dos ‘os Modernos’ sobre ‘os Antigos’ – na imagem de Hobsbawm -, inverte a titularidade da soberania – Marx diria que põe sobre seus pés o que estava ‘de pernas para o ar’- e declara a liberdade, a igualdade e a fraternidade como atributos ínsitos ao estatuto de cidadania e postulados no exercício do seu poder democrático soberano – isto é, da república. Assim, a nação vem a ser o conjunto dos cidadãos que ostentam a soberania do Estado republicano – o povo soberano. E o  novo modelo de Estado será denominado ‘Estado-nação’, supondo uma relação biunívoca e indissociável entre ambos os termos.

Mas – recordemo-lo – a nação é uma realidade social de base, enquanto o estado é uma realidade jurídico-política superestrutural. E o estatuto de ‘cidadania’ refere-se à condição de indivíduo livre numa república, enquanto o de ‘nacionalidade’ identifica-o como membro de uma comunidade nacional – preexistente lógica e historicamente ao estado. E assim, quando o edifício estatal corresponde a uma só nação, o estado será uni-nacional – como o é, por exemplo, o português – e a correlação biunívoca entre nação e estado encaixa sem problemas.  Mas quando o estado assenta sobre uma realidade plurinacional, das duas uma, ou o estado se constrói mediante um acordo de confiança recíproco – foedus – no qual cada nação decide soberanamente integrar-se, ou não, numa articulação – confederação – de estados, eles sim, nacionais, ou ergue-se mediante a decisão dominante de um ou vários dos sujeitos com soberania nacional sobre os demais: será um estado unitário na forma mas plurinacional no seu substrato, e portanto albergará um conflito, declarado ou potencial, de questões nacionais não resolvidas por articulação, mas sufocadas por imposição.

No panorama europeu, até tempos recentes, esta última ‘solução’ determinou a morfologia da maioria dos estados existentes – enquanto o modélico Estado-nação (estado uni-nacional) ou a solução confederal, eram a exceção, e  não a regra. A maioria eram estados unitários ainda que plurinacionais: Império Austro-húngaro, Império czarista, Estado espanhol, Reino Unido, alguns estados escandinavos… Ou, em alguns casos, subnacionais – Polónia ou, durante a ‘guerra fria’, as duas Repúblicas alemãs (RDA e RFA). Alguns foram resolvidos às custas de conflitos bélicos como a I Guerra Mundial (países danubianos, Jugoslávia) ou a IIª (Polónia), ou com ‘luta armada’ interna (Irlanda). Outros pacificamente (países escandinavos, Alemanha) ou ‘traumaticamente’ (implosão da URSS e do ‘bloco de Leste). Mas outros albergam ainda ‘questões nacionais’ não resolvidas, nem violenta nem pacificamente, mas sufocadas pela dominação e violência institucional.

O Estado espanhol é um caso extremo.  O regime fascista e ‘nacional-católico’ da ditadura franquista, imposto pelo genocídio subsequente à sublevação militar de 1936 contra a IIª República espanhola, não foi deposto por um processo revolucionário militar-popular como o português iniciado em abril de 1974, mas ‘transicionado’ – e ‘transacionado’- mediante uma manobrada ‘reforma política’ pactada ‘por cima’ com os poderes do ‘antigo’ regime,  que traiu e fez abortar o processo desconstituinte protagonizado pelas classes populares em luta por uma ‘ruptura democrática’. Em consequência, a nova Constituição de 1978 não só não instaurou a república reclamada pelo movimento rupturista, mas agravou o problema das ‘questões nacionais’ internas definindo dogmática e axiomaticamente a nação pelo estado, e negando às nações-sem-estado ‘periféricas’ – que tinham tido todas estados próprios no passado histórico – a sua identidade e o direito à autodeterminação reconhecido aos povos de todo o mundo desde a criação da ONU e dos processos de descolonização. Permitam-me, leitoras e leitores, referir-me agora ao processo atual deste conflito no Estado espanhol,  que acho que pode ilustrar como ‘caso prático’ a problemática das ‘questões nacionais’ e da posição da(s) esquerda(s) perante elas, isto é, combinada com a perspetiva de classe e, portanto, das alianças na luta de classes democrática.

2. As ‘questões nacionais’ na constituição espanhola de 1978: a ‘conceção’ da Nação a partir do Estado

Para compreender a peculiar idiossincrasia do atual Reino de Espanha, instaurado pela constituição de 1978, e do regime da IIª Restauração borbónica, configurado nela, é necessário ter em conta a dialéctica dos dois, e reciprocamente contraditórios, processos pré-constituintes que acontecem durante o franquismo tardio. O primeiro, e com raízes mais fundas e de longa duração – décadas de 60 e 70-  é um combate cívico-político protagonizado pela sociedade civil, destituinte desde baixo do regime totalitário – explicitamente denominado assim numa das suas ‘Leis Fundamentais’- e pré-constituinte de uma república federal-confederal, previa a demolição completa do edifício jurídico-político franquista mediante uma ruptura democrática. O segundo, bem mais breve e tardio – segunda metade dos 70 – é uma operação, ou ‘conjuração’,  destinada a fazer abortar o primeiro, cozinhada desde cima e a partir de fora de Espanha, sob a direção do Departamento de Estado dos EUA.

Cumpre assinalar que, em relação ao primeiro, a contribuição dos movimentos nacionalistas dos Països Catalans, Euskal Herria e Galiza – com as suas organizações cívicas, sindicais e políticas – fez com que todas as organizações espanholas comprometidas com a concretização da ‘ruptura democrática’ assumissem a realidade plurinacional, advogassem o direito das três nações ‘periféricas’ à sua livre determinação, e preconizassem um modelo republicano de estado, com predomínio de propostas de articulação federal-confederal daquela realidade sociopolítica. Mas, como dissemos, este processo foi abortado pela  ‘conjuração’ desde cima e fora, isto é, desde instâncias de poder supra-estatais, protagonizada pelo Departamento de Estado dos EUA, com a colaboração das duas grandes Internacionais, social-democrata e democrata-cristã – e muito singularmente pelo SPD alemão – e com a cumplicidade, de dentro, de novos quadros dirigentes parvenus – primordialmente do PSOE desde o ‘congresso’ de Suresnes (outono de 1974) – e a ‘adesão’ de setores oportunistas do regime franquista que viram nesta operação o campo aberto para a sua sobrevivência – a começar pelo novo monarca investido pelas Cortes franquistas, depois da morte do ditador, com a aplicação de nada menos que a Lei da Sucessão de 1946. Tudo isto decorreu num contexto internacional gravemente adverso: o mundial e europeu da guerra fria, e o peninsular da revolução portuguesa, já então dirigida pelo MFA: nesses contextos, um Portugal ‘vermelho’ era um quisto muito chato, mas uma Península Ibéria ‘vermelha’ resultaria num cancro possivelmente letal para a hegemonia imperial yanqui na Europa ocidental. Assim que, sabotado e truncado o exercício rupturista da soberania popular, o ‘povo espanhol’, conforme o lúcido diagnóstico de Joan Garcès, em vez de poder atuar como soberano, foi reduzido à condição de intervencionado  – pela enésima vez na sua história, por certo, desde 1714 em adiante.

Suplantada a ‘ruptura’ pela ‘reforma’ – do irreformável, claro – as Cortes resultantes das – muito truncadas – eleições de 1977 – que não foram convocadas como constituintes – elaboram a Constituição de 1978, que impõe a (IIª) Restauração da monarquia borbónica – sem consulta plebiscitária, claro está – , recusa admitir o direito à autodeterminação às nações-sem-estado, e declara axiomática e dogmaticamente como fundamento dessa constituição, não só uma única nação espanhola – sociopoliticamente inexistente como tal- senão inclusive a sua (eterna?) unidade, indissolubilidade e indivisibilidade (art.2). Para garantir esse dogma, encarrega o exército – franquista não depurado – actuar conforme o sabe fazer, se for caso disso, “em defesa da integridade territorial” (art. 8) dessa única e indivisível nação – ao estilo do Santo Ofício na contra-reforma católica tridentina.

Como os ‘pais da constituição’, ainda que não reconheçam a existência dentro do Estado de nações diferentes da espanhola, sabem que existem, têm consciência de o ser, que continuam a afirmar-se como sujeitos de soberania, e continuarão a lutar para a  exercer, recorrem ao substituto da autonomia como fórmula político-administrativa de autogoverno limitado. Neste caso, a autonomia é uma carta outorgada por um Estado unitário já constituído, ou seja, é um expediente para uma descentralización administrativa, mas supõe um enfoque antitético da participação de vários sujeitos de soberania no processo constituinte de um novo estado, e inválido para resolver o problema das “questões nacionais”. E, claro é, não o resolveu. Ao invés, piorou-o. O rótulo do Título VIII da constituição é muito eloquente: “Da organização territorial do Estado”.  Demonstrámos que as nações não são territórios, nem sequer precisam de território para existir. Reduzir comunidades nacionais de cidadãos a territórios é, além de uma inaceitável e ofensiva coisificação de coletivos humanos, uma aberração intelectual e política: é toda uma provocação. Como se isso fosse pouco, misturam-se e igualam-se ‘comunidades autónomas’ a realidades nacionais, ou fragmentos delas em separado, com grupos de províncias ou inclusive províncias individualizadas – como Múrcia ou Madrid – e até enclaves coloniais em Marrocos como as cidades de Ceuta ou Melilla: ao estilo de uma “caldeirada de marisco’, muito borbónica é certo – para a Zarzuela. E, como cereja no topo do bolo, regula-se no mesmo Título VIII a autonomia administrativa dos municípios e das províncias. Todo um ‘Celtiberia Show’.

Em suma: uma aberração que está na raiz da permanente conflitualidade das ‘questões nacionais’ desde o começo mesmo deste regime mal nascido, desde o resistente conflito armado euskaldún, ou a constante luta social de auto-defesa na ‘colónia galega’, até ao exemplar ‘procès’ cívico-político e pacientemente pacífico do independentismo catalão dos nossos dias, que resiste com tenacidade democraticamente republicana à escalada de provocações e agressões de um poder estatal cada vez mais reacionário, chauvinista, antidemocrático e violento. E todos eles, na sua evidente diversidade de formas, métodos e potência, protagonizados primordialmente nuns casos (Euskadi e Catalunya), ou exclusivamente noutros (Galiza), pela esquerda social, isto é, as classes populares e trabalhadoras. Enquanto a esquerda política de obediência estatal – com escassas exceções – em vez de compreender que estes movimentos emancipatórios são objetivamente  aliados para a sua luta de classe, posiciona-se e atua de forma que acaba por resultar na assunção da “conceção” constitucional da identificação e/ou relação biunívoca entre nação e estado, e esquecer – ou, pior ainda, desconhecer – o legado do pensamento e reflexão da tradição marxista sobre as questões nacionais, desde o próprio Marx – na sua famosa reconsideração sobre a questão irlandesa em relação positiva com o movimento ‘cartista’ operário inglês – até Lenine e – com o desértico intervalo estalinista – o marxismo da rebelião anticolonial na periferia do sistema, seja cubano, latino-americano ou africano. Às vezes pergunto-me se porventura alguns terão lido pelo menos a famosa antologia de textos marxistas sobre a questão nacional editada por Maspero nos anos 70, com um memorável posfácio de Michael Löwy.

3. As ‘questões nacionais’ na actual ‘rebelião *cívica *rupturista’.

O processo de degradação do regime constitucional espanhol de 1978 – no contexto de uma crise generalizada do ‘Estado democrático moderno’ – começa durante os dois mandatos de José María Aznar (1996-2000; 2000-2004) – particularmente no segundo – em que o PP, por uma lado, inaugura a conversão de uma maioria parlamentar absoluta em regime de partido único de facto e, por outra, acomete um completo saque do património do Estado e do seu ‘setor público’, consumando assim uma virtual invalidez do voto da oposição e uma mutilação das definições constitucionais do ‘Estado democrático e social de direito’ e da ‘Economia social de mercado’. De facto, no final desses mandatos, boa parte do Tít. I (Dos direitos e deveres fundamentais) não estava realmente em vigor. Como consequência, cresce a assimetria entre a ‘sociedade civil’ e a ‘sociedade política’ e acelera-se um divórcio entre a cidadania e as instituições ‘democráticas’ do Estado: entre o comum cidadão e a casta política que diz representar e para ele governar – mas incumpre o fideicomiso eleitoral e governa contra a maioria social. Opera-se assim uma progressiva mutação do regime político, em deriva para um constitucionalismo oligárquico – conforme demonstrado pelo professor catalão G. Pisarello. O crescente descrédito das instituições políticas e dos seus inquilinos, e a crescente desproteção dos setores sociais mais ‘esquecidos’, ou agredidos, indu-los a organizarem-se em autodefesa e suscita um processo de rebelião cívica. O feedback entre a involução do aparelho de estado e a rebelião cívica traduz-se, por fim, numa deslegitimação das instituições ‘democráticas’. O impacto da crise financeira de 2008 e da subsequente ‘grande depressão’ na destruição de direitos sociais e laborais e no aumento da desigualdade e da pobreza, abre uma nova fase no referido processo que transformará numa decomposição do regime e do seu modelo funcional ‘por turnos’ entre os dois partidos ‘dinásticos’ (PP-PSOE), agravada pelo escândalo da corrupção que lhe é inerente. A rebelião cívica, que teve o seu precedente precoce na Galiza com o movimento Nunca Máis (2002-003), atinge no âmbito estatal o seu apogeu e ponto de inflexão no ‘famoso’ 15M de 2011, quando a maré dos indignados invade toda a geografia hispana – e o processo se torna explicitamente destituinte do atual regime.

A esta dimensão de classe da luta destituinte cívico-social agrega-se a dialéctica das questões nacionais, que tende a reinventar o espartilho do ‘Estado das autonomias’. As tentativas prudentes das forças nacionalistas ‘periféricas’ de realizar simples reformas progressistas dos seus respetivos Estatutos de Autonomia, são boicotados pelo PP. No caso basco, o chamado ‘plano Ibarretxe’ – apelido do seu lehendakari – aprovado pelo Parlamento de Euskadi, é alvo de um ignominioso desplante nas Cortes – que o recusam sem o debater. No caso galego, o projeto elaborado pelo bipartido BNG-PSdG (2005-2009) – com apoio unânime da sociedade galega – é boicotado pelo PP no próprio parlamento da Galiza. E no caso catalão, sendo presidente o socialista Pasqual Maragall, o projeto consensualizado com o seu correligionário presidente espanhol Zapatero, aprovado por uma maioria avassaladora no Parlament, é ‘cepillado’ (higienizado) (Alfonso Guerra dixit) nas Cortes, e para cúmulo dos cúmulos, o Tribunal Constitucional, a instância de Rajoy-PP, redu-lo a esqueleto. Na Galiza, submetidas as instituições a uma crescente “ocupação para-colonial, só as forças sociais combativas se mantêm nas lutas de classe e nacional. Em Euskadi, a esquerda abertzale está a reformular e a reorganizar a luta política ‘não violenta’ após o impasse da luta armada. Só na Catalunha a reacção de uma muito estruturada e sólida sociedade civil poderá pôr em marcha o potentíssimo, pacífico e democrático procès independentista que “encostará à parede” o regime monárquico que tem reagido sob forma de uma deriva cada vez descarada em direcção a uma utilização do poder que metamorfoseie o fascismo franquista – isso se: invocando e esgrimindo a constituição que esse mesmo poder tem derrogado faticamente nos seus conteúdos mais garantistas em matéria de liberdades e direitos democráticos.

Temos assim, por um lado, dois níveis entre os que interagem com os motores do processo e, por outro, dois eixos de contradição antagónica que lhe imprimem direção. Em relação aos dois níveis mencionados, o motor principal radica na ‘rebelião cívica’, que protagoniza um processo destituinte impulsionado de baixo para cima, mas que se combina com a atuação desconstituinte do poder político, que quebra o seu próprio ‘pacto constitucional’ e reduz a cinzas a sua constituição. Por outro lado, os dois eixos de contradição antagónica são, respetivamente, o da luta de classes – em termos das ‘classes populares’ ou da ‘maioria social’ que enfrenta a oligarquia financeira e os seus ‘bonecos de ventríloquo’ nas instituições polìticas -, e o das nações-sem-estado que enfrentam o Estado que as nega e oprime. Em termos simplificados: o eixo ‘esquerda contra direita’, que expressa a luta de classes; e o eixo ‘nacionalismos periféricos contra chauvinismo estatal’, que expressa a luta emancipatória das nações negadas pela constituição de 1978. Bem como ambos níveis do processo retroalimentam-se, ambos eixos de contradição se combinam, objetivamente, na sua dinâmica ruturista. Dito isto, no eixo da luta de classes, o protagonista é a esquerda social, e não (tanto) as suas organizações políticas e sindicais – a maioria delas divorciada, de facto, em certa medida, das suas bases sociais e eleitorais, e incapaz de construir uma alternativa frutífera – nem sequer um acordo ‘à portuguesa’. E no eixo das ‘questões nacionais’, as organizações da esquerda estatal não ‘entendem’ que os nacionalismos emancipatórios são seus aliados. Nem sequer, infelizmente, a esquerda nascida da rebelião cívica e, na sua origem, ruturista em relação ao regime, como são o Podemos e as chamadas ‘confluências’ – e prova disso foram as últimas eleições catalãs. A consequência é o atual ‘bloqueio’ do processo político´- que favorece a oligarquía, permitindo-lhe actuar de modo análogo aos bailleurs de fonds (Daniel Guérin) dos fascismos ‘clássicos’ de outrora e encontrar no cripto-fascista Ciudadanos um substituto para o PP. Isto é, em vez da ‘ rutura democrática’, o seu contrário: ‘fascização’.

4. Coda: a necessária combinação dos dois eixos de contradição para uma rutura republicana progressista com o Regime monárquico espanhol e a solução correta definitiva para as ‘questões nacionais’.

Como conclusão, acho que fica patente que se combinam e se retroalimentam – objetivamente, para especificar – os dois níveis e ambos os eixos de contradição, e que o protagonista do processo é o cidadão comum e não (tanto) as forças políticas não comprometidas com a monarquia. Portanto, é essa esquerda social em todo a esfera do Estado espanhol que aposta na rutura, e é essa mesma esquerda nas nações-sem-estado a que protagoniza os seus respetivos movimentos emancipatórios. Disso resulta que esses povos oprimidos reclamem exercer a sua soberania nacional sob a forma de soberania popular.  Isto é muito relevante para efeitos de diagnóstico, porque revela o conteúdo de classe predominante nessas lutas: não são as respetivas burguesias as classes que as dirigem, não se trata de nacionalismos burgueses – nem sequer na Cataluña, pese embora certas epidérmicas aparências. E aqui vem ao caso citar Michael Löwy, que reclama “distinguir com muita clareza o nacionalismo dos opressores do nacionalismo dos oprimidos” – Vladimir I. Ulianov, é sabido, só denominaria o segundo de ‘nacionalismo’ e, em contrapartida, de chauvinismo o primeiro.

Precisamente aqui radica a chave para que se conjuguem a rutura em tonalidade republicana progressista e a emancipação das nações negadas. Dado que é a esquerda social quem protagoniza primordialmente um e outro processos, ambos se complementam objetivamente, como já reiterei. Mas é preciso que também seja assim subjetivamente. Isto é que, reciprocamente, as forças espanholas da esquerda ruturista compreendam e assumam que os nacionalismos emancipatórios ‘periféricos’ são objetivamente seus aliados necessários, e que estes compreendam e assumam que, sem a aliança com essas outras forças, dificilmente conseguirão (conseguiremos) ganhar uma batalha – democrática- que tem como seu irredutível, reacionário e chauvinista inimigo principal as forças do atual regime. Sem rutura não existirá solução para as ‘questões nacionais’, porque não se poderá abordar o necessário ‘processo dos processos’ constituintes. E sem ‘livre decisão’ das nações-sem-estado também não existirá rutura, e portanto solução para os gravíssimos problemas sociais do cidadãos comum, agredido pelas brutais políticas antidemocráticas praticadas pelos poderes do atual regime mal-nascido da IIª Restauração borbónica.

Em todo caso, são os nossos povos peninsulares quem tem em exclusivo o direito a decidir livremente o seu destino. E sem um apriorístico numerus clausus. Afirmou-o faz quatro décadas Michael Löwy, e desde então subscrevi-o sempre: “Não é um doutrinário sábio (…) quem deve determinar se uma comunidade constitui ou não uma nação, mas essa comunidade por si mesma”.

As referências bibliográficas das citações referidas no texto são:

Otto Bauer, La question des nationalités et la social-démocratie, Arcantère, Paris, 1987. [edición original alemana, Viena, 1907].

Michael Löwy, Patria ou Terra Nai?. Ensaios sobre a Cuestión Nacional, Santiago de Compostela, Laiovento, 1999.

Joan E. Garcés, Soberanos e intervenidos, Madrid, Siglo XXI, 2012 (4ª edición; 1ª ed. 1996).

Economista, dirigente histórico do nacionalismo galego e fundador da ANOVA – Irmandade Nacionalista.

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